Por que “resolvedores” também precisam aquecer os pneus da empatia antes de acelerar


Tem gente que acorda em volta rápida. Liga o dia no modo classificação e só pensa em baixar o tempo da própria vida. Ayrton Senna foi patrono honorário desse clube: obsessão boa, foco milimétrico, a tal da direção apontada para o impossível — e, surpreendentemente, chegando lá. O problema é que, fora da pista, o mundo tem buracos, lombadas, pedestres distraídos e gente que ainda está procurando a chave da ignição.
Os “resolvedores” (essa espécie rara que vê um nó e já aparece com três tesouras e um plano de contingência) costumam tropeçar num detalhe humano: a maioria de nós precisa de bandeira amarela antes da conversa difícil. Um pequeno “nariz de cera”, como dizem os jornalistas — aquela introdução macia que prepara o terreno. O resolvedor, prático, acha perda de tempo. “Vamos direto ao ponto”, ele pensa, já com o slide de solução aberto. Só que, do outro lado, muitas pessoas não funcionam sob luz fria de oficina; precisam de aquecimento, mimos de contexto, uma voltinha lenta no quarteirão.
Não é defeito. É calibragem. Assim como cada carro pede um acerto distinto para cada pista, cada pessoa tem um jeito próprio de frear e acelerar. Há cabeças que travam diante do tom seco; há corações que patinam em curvas apertadas. E, se o objetivo é ajudar — não vencer a discussão por três décimos —, vale ajustar o traçado: começar leve, ouvir mais que falar, reduzir uma marcha. É curioso, mas para muitos problemas emocionais, a melhor ferramenta não é a chave inglesa: é o silêncio paciente.
“Ah, eu não tenho paciência e quem quiser que se adapte a mim.” Tudo bem, essa é uma filosofia possível. Mas ela costuma funcionar melhor quando você está solo. Quando a escolha é amparar alguém, a pista deixa de ser particular. A partir desse momento, a regra muda: não é sobre a sua velocidade; é sobre a aderência do outro. A empatia vira um componente técnico da conversa — tipo trocar pneus slick por intermediários quando começa a chuviscar. Não é drama. É estratégia.
Também ajuda lembrar que fragilidade tem versões visíveis e invisíveis. Às vezes o pedido de ajuda vem com o problema atrás de um muro: a pessoa não sabe nomear, não enxerga inteiro, tem vergonha. O resolvedor vê a curva e já quer tangenciar; o outro, com medo da zebra, pisa no freio no meio do contorno. Se você empurra, os dois saem da pista. Se você acompanha, talvez a volta fique mais lenta — mas termina.


E Senna nisso tudo? Continua sendo referência de disciplina e excelência — um norte que dá vontade de seguir. Só que, no convívio, pressionar os outros a rodar nesse mesmo mapa é pedir para colecionar batidas: muitos não querem esse ritmo; vários querem, mas não sustentam. E está tudo certo. Que os resolvedores sigam inspirando a direção reta e firme — apenas aprendendo a erguer o pé quando a curva é do outro.
No fim, a vida não dá troféu para quem fala primeiro, mas costuma premiar quem chega junto. Há horas de perseguir a volta perfeita; há muitas de esperar o pelotão. Se a meta é resolver, o atalho quase sempre passa pelo afeto: um pouquinho de acolhimento na largada, uma pitada de humor no meio e um “vamos juntos” antes da última freada. A perfeição agradece; as pessoas, mais ainda.