Todo tirano parece invencível — até que o medo deixa de obedecer.
O tirano acorda cedo. Antes mesmo de abrir as janelas do palácio, alguém já afastou as cortinas, provou-lhe o café, escolheu lhe as notícias e apagou dos jornais tudo aquilo que poderia contrariá-lo.
Ele se olha no espelho e acredita ser poderoso.
Entretanto, diante do espelho, há apenas um homem: dois olhos, duas mãos, um corpo sujeito ao tempo, à doença e ao medo. Não possui braços suficientes para prender uma multidão, nem voz bastante para silenciar uma cidade inteira. Seu verdadeiro poder está fora dele — nas mãos que cumprem suas ordens, nas bocas que repetem suas mentiras e nos ombros que sustentam a cadeira em que se senta.
Os déspotas de hoje raramente entram pela porta arrombando fechaduras. Alguns chegam pelo voto, sorriem nos palanques, juram fidelidade às leis e pronunciam a palavra “povo” com admirável desenvoltura. Depois, pouco a pouco, passam a confundir mandato com propriedade, crítica com crime e oposição com traição.
Quando alguém pergunta demais, surgem os homens de uniforme.
Um professor é retirado da sala. Um jornalista desaparece. Um estudante volta para casa com o rosto ferido. Uma mãe percorre delegacias levando a fotografia do filho. Enquanto isso, o governante comparece à televisão e anuncia que tudo foi feito em nome da ordem.
E parte da sociedade acredita.
Outra parte não acredita, mas se cala. Há quem tenha medo de perder o emprego, o cargo, o contrato, o benefício ou a tranquilidade doméstica. Há também servidores públicos elevados, por indicação, aos mais altos postos, ostentando incontáveis privilégios que eles próprios se atribuem. Devem o cargo ao governante e, confundindo função de Estado com fidelidade pessoal, excedem os limites de suas atribuições, perseguem adversários e chegam até a ordenar prisões, na esperança de preservar, ao mesmo tempo, o regime e aquele que os nomeou.
Há ainda aqueles que recebem uma pequena parcela de autoridade e passam a defender o sistema que os oprime. O chefe humilha o subordinado; o funcionário persegue o cidadão; o vizinho denuncia o vizinho.
Forma-se, assim, uma extensa escadaria de obediências: cada um pisa em alguém para não perceber o pé que lhe aperta o pescoço.
O mais assustador é que a tirania aprende a vestir-se de normalidade.
Depois de algum tempo, já não espanta a prisão injusta, a censura, a ameaça ou a tortura. A violência transforma-se em estatística; o sofrimento alheio vira notícia breve; e a consciência, para dormir, repete que sempre foi assim.
Mas nunca foi “assim” por obra do destino. Foi ficando assim toda vez que alguém obedeceu sem perguntar, concordou por conveniência ou desviou os olhos para não se comprometer.
É verdade que não se pode chamar de voluntária a submissão de quem está diante de uma arma. Há medos que não são escolhas. Há silêncios produzidos pela fome, pela cela e pela ameaça de morte.
Contudo, antes da arma, quase sempre houve muitas pequenas permissões.
Um tirano não se sustenta sozinho. Precisa de aplausos, carimbos, sentenças, fardas, discursos e indiferença. Precisa, sobretudo, de pessoas convencidas de que nada podem fazer.
Talvez por isso a liberdade não comece com um grande gesto heroico. Talvez comece quando alguém, mesmo tremendo, retira as mãos da cadeira. E pergunta:
— Por que ainda estamos carregando esse homem?
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