

Olá, legentes!
Hoje, eu decidi compartilhar com vocês a minha imensa alegria por ter sido agraciado com o prêmio de 3° lugar em Prosa — categoria adulto — no 2° CLAP, que foi promovido pela AVLA – Academia Valinhense de Letras e Artes, a quem agradeço profundamente pela honra.
Aproveito para registrar os parabéns pela posse d novos acadêmicos e imortais da AVLA: o escritor Fabson Gabriel Pereira e a artista plástica Eliete Tordin.
A estante
Já era noite, quando a estante chegou num carreto feito de favor, foi descarregada da Kombi, e posta no meio da pequena sala de estar. A família nem havia pensado direito onde iria colocá-la, então ela ficou por ali mesmo. Só no dia seguinte, decidiram que a deixariam numa das paredes daquele ambiente.
O móvel fora deixado como herança de Olga à sua meia-irmã, Mariza.
Olga era mulher bem letrada e sua meia-irmã vendia coleções enciclopédicas de porta em porta à época, assim fazia sentido que a estante tivesse sido deixada para ela, que também herdou todos os livros da falecida.
A estante feita em madeira de imbuia tinha duas portas de correr, com o superior das frentes em vidro ártico incolor, que lembravam escamas e davam um ar elegante ao móvel, enquanto protegiam seu conteúdo interior.
Com a estante, Mariza herdou muitos livros, que foram recolocados na estante, já em seu novo lar.
Era estranho observar aquele móvel que parecia ter vida própria, que se impunha ante os demais; simples, menos nobres, e sem conteúdo.
Mariza gostava de falar sobre a meia-irmã falecida, dos livros que ela havia lido e lhe deixado, de sua história que se distinguia da maioria das mulheres daquela época, de contar que fora a primeira vereadora de seu município e que tivera o mandato cassado, quando seu partido foi proscrito.
Nos livros daquela estante moravam muitos ideais, habitavam muitos idealistas como Olga. Aquela estante era como o corpo de Olga e os livros, sua alma. Quando as portas da estante eram abertas, era possível ouvir as ideias que ela abrigava. Era inspirador comungar delas.
Vez ou outra, os livros eram arejados para evitar traças, e a estante limpa e vistoriada para não ser corroída por cupins. Ao menor sinal deles, o esposo de Mariza injetava querosene com auxílio de agulha e seringa.
O marido de Mariza era militar, mas não se opunha ao conteúdo da estante, que lia com algum interesse.
A estante que chegara à casa de Mariza em 73, permaneceu firme até 77, quando as coisas apertaram no país.
Eu era bem novo, mas me lembro de quando duas das irmãs de Mariza — minhas tias — bateram no portão de casa, sem avisar que viriam.
Só estávamos eu e meu pai — de folga. Minha mãe havia saído para vender as enciclopédias de porta em porta noutra cidade.
Meu pai foi logo dizendo que a minha mãe não estava em casa, mas foi por isso mesmo que a visita se dado de surpresa.
— A gente quer falar com você sobre a estante que a Mariza herdou e sobre aqueles livros da Olga.
— Mas são herança dela, não posso falar por ela. Vão ter que esperar ela chegar da rua.
Mesmo pequeno eu entendi bem a conversa que se seguiu. Nenhuma delas estava ali para brigar pela herança de Olga.
— Você é militar, não pode ter esses livros aqui. Se descobrirem, você vai ter muito o que explicar e eles não estarão dispostos a entender.
No quintal do fundo da casa, havia um grande tambor vazio, que sempre era usado para preparar a caiação das paredes externas.
Já era noitinha quando o primeiro livro foi jogado dentro dele, todo embebido em querosene. Quanto mais livros jogavam, mais a fumaça preta subia e o clarão da fogueira iluminava os rostos culpados.
Quando minha mãe chegou, o fogo já tinha consumido quase tudo e a felicidade que ela estampava por ter vendido uma coleção completa de livros se desfez feito a fumaça escura que saía do tambor.
Com o tempo, vazia de alma, a estante foi parar num barracão na lateral da casa até que um primo a adotou.
Anos mais tarde, os cupins a levaram.
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