Herdeiro sarará

Olá, legentes!

Nessa quarta-feira, 25 de março de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) adotou uma resolução em que por maioria os países membros reconhecem o tráfico transatlântico de escravos como “o crime mais grave contra a humanidade”.

Na votação, 123 Estados-membros se manifestaram a favor, três foram contra e houve 52 abstenções.

O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão, conforme já lembrou a historiadora Lilia Schwarcz, em entrevista concedida à BBC Brasil em maio de 2018.

Conforme nos conta o jornalista e escritor paulistano André Simões em seu livro Chico Buarque em 80 canções (Editora 34, 2024), em 1890 — menos de dois anos após a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888 — surgiu um Hino da Proclamação da República com os seguintes dizeres: “Nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre país”.

Como bem lembrou Simões, era como se de uma hora para outra nunca tivesse havido escravidão no Brasil: um país que recebeu mais de quatro milhões de pessoas escravizadas, sem contar os tantos que morriam pelo caminho, vindos do continente africano.

As reflexões de André Simões sobre o tema da escravidão no Brasil partem do conto-canção intitulado “Sinhá”, com letra de Chico Buarque e música de João Bosco, que integra uma das faixas do álbum “Chico” (2011).

Em “Sinhá”, é narrada pela perspectiva de um “Cantor atormentado/
Herdeiro sarará”, todo o sofrimento imposto a um escravo por ser suspeito de haver olhado para a sinhá, que se banhava no açude.

Conta o narrador-cantor “Com voz do pelourinho / E ares de senhor” que o escravo sofreu intensos castigos: “Por que talhar meu corpo / Eu não olhei, Sinhá / Para que que vosmincê / Meus olhos vai furar / Eu choro em iorubá / Mas oro por Jesus / Para que que vassuncê / Me tira a luz”

Passados quase 138 anos da Lei Imperial nº 3.353 (Lei Áurea), que extinguiu a escravidão em nosso país, Portugal e mais 51 Estados-membros, incluindo o Reino Unido e Espanha, se abstiveram de votar a declaração da ONU que imputa aos seus signatários o dever de considerar a apresentação de desculpas pelo tráfico de escravos e contribuir para um fundo de reparações para o fenômeno histórico ocorrido desde o Século XV.

Três nações votaram contra: Estados Unidos, Israel e Argentina — para zero surpresa deste articulista.

Sem memória, a abolição vira mito; sem reparação, a história segue sangrando.

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