O Tempo dos Figos Roxos

Quando a terra amadurece memórias e o afeto ganha sabor

                Sob o ouro manso de uma tarde de verão, o vilarejo — escondido entre colinas verdes — respirava doçura. Era tempo de figos.

                As figueiras, antigas guardiãs dos quintais de pedra, vergavam-se em silêncio, pesadas de frutos maduros, como se ofertassem à terra o segredo da abundância.

                Os figos roxos — de pele macia, quase veludo — escondiam em si um coração rubro, vivo, pulsante. Ao se abrirem, revelavam pequenas luzes — sementes que cintilavam ao sol — e um sabor que era ao mesmo tempo doce e levemente agreste, como a própria vida.

                As crianças corriam entre os galhos, com as mãos tingidas de terra e alegria, enchendo cestos de vime como quem recolhe pequenos milagres. Os mais velhos, pacientes como o tempo, ensinavam: colher exige escuta — nem cedo demais, nem tarde a ponto da ruptura.

                Ensinavam que num mundo apressado, onde tudo se quer antes de amadurecer, há um instante exato para colher, outro para partilhar, e outro — ainda mais raro — para simplesmente saborear.

                Havia ali um rito — discreto, mas sagrado.

                Quando a noite descia, o vilarejo se acendia em festa. As mesas, espalhadas pela praça, tornavam-se altares de partilha: figos frescos, secos, em calda, em massa, em licor — todas as formas de eternizar o instante.

                E, entre todas, reinava o doce de figo ramy de Dona Margarida.

                De mãos delicadas e olhar que guardava histórias, ela não apenas cozinhava — ela traduzia o lugar. Diziam que, ao provar seu doce, sentia-se mais do que o sabor: sentia-se o tempo, a gente, a terra.

                Os figos não eram apenas frutos. Eram laços. Eram memória. Eram a própria vida, amadurecendo ano após ano — caindo no tempo certo, deixando na boca e na alma um gosto doce de permanência.

                Confesso: sempre que penso em figos, não penso apenas no fruto. Penso no tempo.

                Num tempo mais lento, quase esquecido, em que as coisas não precisavam correr para existir. Um tempo em que colher era também esperar, e repartir, mais do que gesto, era hábito.

                Talvez eu nunca tenha morado naquele vilarejo. Mas, de algum modo, reconheço-o. Ele se parece com lugares que vivi, com pessoas que conheci, com tardes que já não voltam — embora insistam em permanecer.

                E há dias em que me pego procurando esse gosto outra vez. Não exatamente o do figo, mas o daquilo que ele carregava: o encontro, a simplicidade, o instante inteiro.

                Sei que o mundo mudou. Eu também.

                Mas gosto de acreditar que, em algum lugar — talvez dentro de nós — ainda exista uma figueira carregada, esperando o tempo certo de nos devolver aquilo que, sem perceber, fomos deixando pelo caminho.

                E quando esse tempo chega, ainda que por um breve instante, a vida — generosa — volta a ter gosto doce.

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