Huckstein da Paulistânia

Em um tempo de um passado não tão distante, no belo reino sudestino da Paulistânia, todo o povo esperava pela tão aguardada profecia que um dia traria fartura eterna aos mais miseráveis daquelas terras.

Uma antiga predição dos oráculos da montanha encantada, onde habitaram os primeiros meritocratas, dizia: E, nos derradeiros dias do inverno do ano de MCMLXXI, no hemisfério sul deste mundo, na região daquela que será chamada de Paulistânia, uma criança nascerá em berço dourado. O rebento terá em suas veias toda a nobreza eslava e será ungido por Perun, que lhe dará a guarda da justiça.

E tal como fora profetizado, o escolhido veio ao mundo para redimir todo e qualquer miserável com seu machado de cabo de carvalho sagrado capaz de cortar todo benefício dos vagabundos e de suas infindas proles de acomodados, para então libertá-los do ócio eterno e paralisante, que impedia que aquelas terras saíssem das trevas do terceiro dos mundos.

E o prodígio foi batizado de Grociano Huckstein, como já previam as divinas escrituras.

Toda a graça e sabedoria já eram notadas naquela criança, que, segundo diziam desde muito cedo, possuía imenso olfato para a justiça e para os negócios daquele reino.

E ensinaram a Huckstein as leis mais justas daquele mundo e as mais belas artes e as mais sagradas tábuas da meritocracia, para que nunca lhe faltasse o olhar soberano de sua elite. E ele era alimentado todos os dias com os mais macios brioches feitos com a mais rica das manteigas das cabras das altas pastagens.

Mas o caminho de Huckstein não foi só de bênçãos e, com somente 20 aninhos, ele precisou enfrentar sua primeira grande batalha para provar que poderia ser o grande redentor de seu povo. Foi estagiar junto a um dos maiores arautos de todo o reino, tendo apenas sua recente coroa de louros por título de mais justo dos justos, que lhe fora dada pelos sábios uspianos da Paulistânia. Levou também dois brioches.

E Huckstein venceu. E venceu novamente e mais outra vez e tantas outras mais que se seguiram, graças à sua magnificência mais magnânima e magnífica que já existiu.

Mas Huckstein queria mais e faltava-lhe sua maior e mais desafiadora missão: aquela que lhe fora dada antes mesmo de seu nascimento. Livrar os vagabundos e miseráveis de todo o ócio a que tinham sido condenados por haverem aceitado receber a chamada escarcela familiar — herança de um antigo conquistador que dominava o terceiro dos mundos do hemisfério sul.

Munido de todas as suas vitórias meritocráticas e com seu machado de cabo de carvalho sagrado erguido aos céus, gritou para que toda a Paulistânia ouvisse: A escarcela familiar é ineficiente e não gera estímulos para as famílias buscarem autonomia financeira.

E foi então que os habitantes de Paulistânia, em uníssono, bradaram: Vá para sua casa, burguês!

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