Houve um tempo em que as pessoas permaneciam.
Não porque fossem perfeitas, mas porque havia paciência para os defeitos.
Consertavam-se amizades como se consertavam sapatos.
Costuravam-se afetos com linhas invisíveis de tolerância.
Hoje, não.
Hoje tudo vem com prazo curto — até os sentimentos.
As conversas já não amadurecem: notificam.
Os abraços já não apertam: registram.
Os amores já não criam raízes: criam senhas.
Vivemos apertando “seguir” enquanto desaprendemos a acompanhar.
O padeiro da esquina desapareceu.
O carteiro já não conhece os nomes das casas.
Os vizinhos sabem a marca do carro uns dos outros, mas ignoram quem anda chorando do outro lado do muro.
As pessoas tornaram-se vitrines ambulantes .
Sorri-se para fotografias enquanto a alma permanece em modo avião.
E talvez fosse exatamente isso que Zygmunt Bauman tentou nos dizer: que a modernidade não endureceu o homem — ela o dissolveu.
Tudo agora precisa ser leve, rápido, portátil e substituível.
Até a dor deve durar pouco, porque o mundo exige produtividade emocional.
Ninguém mais sofre por muito tempo.
Ninguém mais espera por muito tempo.
Ninguém mais fica por muito tempo.
Trocam-se empregos como quem troca capas de celular.
Trocam-se opiniões conforme a tendência da semana.
Trocam-se afetos pela simples fadiga de insistir.
E, no entanto, nunca houve tanta solidão.
As cidades cresceram para cima, mas os encontros diminuíram para dentro.
Há milhares de amigos nas telas e pouquíssimos ombros nas madrugadas difíceis.
As pessoas aprenderam a bloquear umas às outras antes mesmo de tentarem compreender-se.
Tudo é líquido.
Escorre o tempo.
Escorrem os vínculos.
Escorre até a identidade.
E talvez o maior drama dessa geração não seja perder alguém… mas perder a capacidade de permanecer ao lado de alguém quando a convivência deixa de ser confortável.
Porque amar virou consumo.
E consumir exige novidade.
No fundo, estamos todos cansados.
Cansados de parecer felizes.
Cansados de competir invisivelmente.
Cansados de relações que começam intensas e terminam por falta de bateria.
Talvez ainda haja salvação.
Talvez ela more justamente nos gestos antigos: ouvir sem pressa, visitar sem anunciar, permanecer sem vantagem, amar sem imediatismo.
Talvez resistir, hoje, seja criar raízes.
Num mundo líquido, quem permanece vira monumento.
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