

Uma homenagem a Sebastião Maria, cuja vida foi um exemplo de elegância, caráter, amor e serviço ao próximo.
Ao longo da vida, encontramos pessoas com quem dividimos momentos, projetos e responsabilidades. Mas apenas algumas conseguem transformar essa convivência em admiração permanente.
Sebastião Maria foi uma delas.
Sua partida levou-me a revisitar lembranças de décadas de proximidade, no Lions Clube de Valinhos, na Prefeitura Municipal de Valinhos e na Academia Valinhense de Letras e Artes. E, em cada uma delas, reencontrei a mesma figura íntegra, serena e generosa que todos aprendemos a respeitar.
A notícia de sua partida chegou trazendo aquele sentimento difícil de traduzir em palavras. Não era apenas um amigo que se despedia da vida terrena. Partia também uma presença que parecia fazer parte da própria história de nossa cidade e uma das figuras mais elegantes de minha geração.
Não falo apenas da elegância das vestes sempre impecáveis ou da postura distinta que naturalmente chamava a atenção, mas daquela elegância mais rara e valiosa que nasce da educação, da gentileza e do respeito dedicado a todos, sem distinção.
Conheci Sebastião em diferentes trincheiras da vida.
Fomos companheiros no Lions Clube de Valinhos, onde sua vocação para servir sempre se manifestou com discrição e eficiência. Fomos confrades na Academia Valinhense de Letras e Artes, compartilhando o amor pelas palavras, pela cultura e pela preservação da memória de nossa terra. E fomos colegas de trabalho na Prefeitura Municipal de Valinhos durante os dois mandatos do prefeito Marcos José da Silva, experiência que me permitiu conhecer mais de perto a dimensão de seu caráter.
Foi ali, no exercício cotidiano das responsabilidades públicas, que pude admirar ainda mais suas qualidades.
Mesmo diante das tensões inevitáveis da administração pública, Sebastião jamais abandonava a serenidade. Havia nele uma compostura admirável, uma espécie de nobreza silenciosa que transformava divergências em diálogo e conflitos em entendimento. Essa distinção não era circunstancial; fazia parte de sua natureza.
Sebastião possuía uma virtude cada vez mais rara: a coerência entre o que pensava, dizia e fazia.
Tratava as pessoas com respeito, independentemente da posição que ocupassem. Conduzia os assuntos públicos com responsabilidade e equilíbrio, como quem compreendia que servir à comunidade não era um privilégio, mas um dever.
Era firme sem ser inflexível. Determinado sem ser arrogante. Sereno sem ser omisso. Convicto sem jamais perder a gentileza. Seu caráter parecia moldado por valores que o tempo não conseguiu desgastar.
Em uma época em que tantas virtudes são proclamadas e tão poucas praticadas, Sebastião não precisava discursar sobre ética. Bastava observá-lo para compreendê-la.
Mas talvez sua mais bela obra não tenha sido escrita nos livros, nem registrada nos jornais, nem gravada nos anais da política ou da vida comunitária.
Sua mais bela obra tinha nome: Darcy.
Ao longo dos anos, testemunhei o amor profundo que os unia. Um amor daqueles que não necessitam de discursos porque se revelam nos gestos pequenos. Nos cuidados cotidianos. Na presença constante.
Quando a cruel sombra do Alzheimer começou a apagar as lembranças de Darcy, Sebastião fez exatamente o contrário: fortaleceu aquilo que nem a doença conseguia apagar — o amor.
Enquanto ela esquecia datas, nomes e acontecimentos, ele se lembrava por ambos. E continuou ali. Paciente. Atento. Carinhoso. Fiel. Como um guardião das recordações que a doença tentava levar.
Poucas declarações de amor são tão grandiosas quanto permanecer ao lado de quem já não consegue recordar plenamente quem somos. Sebastião compreendeu isso. E transformou cada dia em um ato silencioso de devoção.
Foi marido apaixonado até o fim. Pai extremoso. Avô querido. Amigo leal. Cidadão exemplar. E também um apaixonado por Valinhos.
Nascido em São Carlos, ainda menino escolheu — ou talvez tenha sido escolhido — por esta cidade. Aqui construiu sua história. Aqui trabalhou, escreveu, serviu, liderou e preservou memórias.
Como jornalista, comunicador e escritor, registrou episódios que poderiam ter sido esquecidos pelo tempo. Em suas páginas, especialmente nas Pérolas de Valinhos, ajudou a eternizar personagens, fatos e sentimentos que compõem a alma valinhense.
Era um homem que compreendia o valor da memória. Talvez por isso sua ausência nos pareça ainda mais dolorosa, porque sabemos que algumas pessoas são como bibliotecas humanas. Quando partem, sentimos que um pouco da história também se despede.
Mas apenas um pouco. Porque os homens verdadeiramente bons não desaparecem. Permanecem nos ensinamentos que deixaram. Nas amizades que cultivaram. Nos filhos que educaram. Nos netos que abraçaram. Nas instituições que fortaleceram. Nas páginas que escreveram e, sobretudo, nos corações que tocaram.
Hoje, enquanto a família chora a ausência física, imagino que o Céu receba um homem de consciência tranquila, daqueles que cumpriram sua missão com honra.
E penso em Darcy.
Talvez sem conseguir recordar cada capítulo da longa história que viveram juntos. Mas certamente ainda alcançada, em algum lugar profundo da alma, pela ternura daquele amor que resistiu ao tempo, às dificuldades e até mesmo às armadilhas da memória.
Num tempo em que a grosseria muitas vezes é confundida com firmeza e a vaidade com grandeza, Sebastião ensinou, pelo exemplo, que é possível ser respeitado sem elevar a voz, exercer autoridade sem humilhar e conquistar admiração sem buscá-la. Era, no sentido mais pleno e bonito da palavra, um cavalheiro.
Adeus, meu amigo.
Valinhos está mais pobre.
A AVLA despede-se de um de seus acadêmicos mais nobres.
O Lions Clube sente a ausência de um companheiro exemplar.
Os amigos veem partir uma de suas mais preciosas referências.
Mas o Céu ganhou aquele que, para muitos de nós, foi o mais autêntico cavalheiro de Valinhos.
E nós ficamos com a gratidão.
Porque algumas vidas não podem ser medidas pelos anos que tiveram, mas pela dignidade com que foram vividas.
E a de Sebastião Maria foi uma dessas vidas raras que honram o tempo que lhes foi concedido.
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