Unicamp e Justiça investem R$ 1 milhão para ampliar atendimento de saúde mental a adolescentes da Fundação Casa de Campinas

Adolescentes internados nas unidades da Fundação Casa de Campinas passarão a contar com uma rede ampliada de atendimento em saúde mental por meio de um convênio firmado entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O acordo, oficializado na última sexta-feira (26), prevê investimento de R$ 1,026 milhão para custear, durante os próximos três anos, uma equipe multiprofissional especializada.

Os recursos são provenientes de multas e penas alternativas aplicadas pela Justiça e serão destinados à contratação de um psiquiatra, um psicólogo, um assistente social e um médico clínico, que atuarão em conjunto com docentes, pesquisadores e estudantes da universidade.

A iniciativa amplia um trabalho desenvolvido pela Unicamp desde 2019 nas unidades socioeducativas. Atualmente, cerca de 120 estudantes do curso de Medicina participam de atendimentos supervisionados por professores, contribuindo para a formação acadêmica e para a assistência aos jovens em situação de vulnerabilidade.

O novo projeto será estruturado em cinco frentes de atuação: prevenção e diagnóstico precoce, atendimento imediato, assistência em saúde mental, ações de autocuidado e cidadania, além de atividades culturais. A proposta é oferecer um acompanhamento mais completo aos adolescentes internados, integrando profissionais especializados, pesquisadores e alunos de pós-graduação.

Segundo o coordenador da iniciativa, o professor Paulo Eduardo Velho, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a principal demanda identificada ao longo dos últimos anos está relacionada à saúde mental dos adolescentes.

“A demanda maior é em saúde mental. Os alunos estão nessa fase do conhecimento, estão se preparando para aquilo que é prevalente para um médico de formação geral atender”, afirmou.

Hoje, a equipe realiza visitas semanais às unidades da Fundação Casa, atendendo em média oito adolescentes por dia. O trabalho também contempla jovens acolhidos em outras instituições da região.

De acordo com o professor, muitos adolescentes privados de liberdade convivem com transtornos mentais que nunca foram diagnosticados ou tratados adequadamente, o que dificulta o aproveitamento das medidas socioeducativas.

“Existem adolescentes ou mulheres que estão privadas de liberdade que têm transtornos mentais que são subdiagnosticados. Eles acabam impondo à Fundação Casa uma responsabilidade que não lhe cabe. Porque é um adolescente ou uma mulher que não tem condição de aproveitar aquela medida socioeducativa que está sendo proposta”, explicou.

Velho destaca que o objetivo da parceria não é substituir o Sistema Único de Saúde (SUS), mas fortalecer a rede de atendimento existente.

“A Unicamp não está para substituir o sistema público, mas para, junto com a rede, oferecer um melhor atendimento”, afirmou.

Além de garantir um direito básico à saúde, a expectativa é que o tratamento adequado da saúde mental contribua para reduzir a reincidência em atos infracionais.

“A gente precisa trabalhar para a saúde delas, primeiro porque elas têm direito à saúde, direito de todo cidadão. Mas entendendo também que, cuidando da saúde mental dessas pessoas, quando elas saem, estarão menos propensas a voltar a delitos”, concluiu.

A iniciativa começou a ser construída em 2017, após um pedido da promotora Elisa Didivites, da Vara da Infância e Juventude de Campinas, para ampliar o atendimento aos adolescentes internados. A partir dessa demanda, a Unicamp criou uma atividade de graduação voltada ao atendimento de populações em situação de vulnerabilidade. Além da Fundação Casa, estudantes de Medicina também desenvolvem ações na Penitenciária Feminina de Campinas e no programa Consultório na Rua.

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