Olá, legentes!
Como muitos já sabem, fui bancário por mais de trinta e sete anos e escrevi muito durante esse período. Eram relatórios, pareceres e outros textos técnicos: uma escrita constante, disciplinada e quase sempre distante da literatura.
A escrita sempre esteve presente em minha vida, mas predominava a sua forma não literária, exceto por pequenos exercícios de caráter mais subjetivo aos quais eu me arriscava às vezes.
Em termos básicos, a literatura é uma expressão artística construída com palavras. Diferentemente do texto não literário, ela explora sentidos conotativos e recursos estéticos para criar experiências capazes de despertar sentimentos e ampliar nossa reflexão sobre a realidade.
Em “Gente Pobre”, romance de estreia de Fiódor Dostoiévski, publicado em 1846, o protagonista Makar Diévuchkin escreve à jovem órfã Varvara, chamada Várienka: “A literatura é uma pintura, isto é, de certo modo, um espelho; a expressão das paixões, uma crítica tão sutil, uma lição edificante e um documento.”
É impossível não perceber como Makar, um humilde funcionário público, reconhece na literatura um meio de compreender a realidade e de olhar para ela com maior sensibilidade.
Nessa carta, Makar fala a Várienka sobre os livros, a arte de escrever e como a literatura abriu a sua forma de enxergar o mundo de maneira mais sensível, com olhar voltado à dignidade humana.
É por isso que, quando me perguntam por que me voltei para a literatura, penso em Makar: sua experiência mostra como os livros podem transformar nossa maneira de perceber o mundo e a dignidade humana.
Outra pergunta recorrente é: de onde vêm as histórias que escrevo? Certamente vêm de mim. Dizer apenas isso, porém, pode soar óbvio e até prepotente, porque a verdadeira curiosidade de quem pergunta está em saber de onde nasce a criatividade, essa capacidade de inventar.
Nunca consigo responder muito bem a essa pergunta. Costumo dizer, porém, que a literatura é pintura e espelho, como afirmou Makar: primeiro observamos o mundo ao nosso redor; depois, ao escrever, devolvemos esse mundo transformado pelo nosso olhar. É nesse movimento entre realidade e subjetividade que as histórias começam a surgir.
À literatura não bastam a realidade nem as palavras. É preciso acrescentar à escrita literária as paixões e toda a subjetividade que nos forma, sem receio nem autocensura.
Quando alguém me diz que não é criativo, penso que talvez ainda não reconheça a própria criatividade. Muitas vezes, o que parece falta de imaginação é, na verdade, medo de ser criticado, mal interpretado ou incompreendido por causa de uma criação, ideia, visão ou expressão subjetiva.
Escrever literatura é se pôr em risco. Quem deseja fazê-lo precisa aceitar a própria voz, com suas paixões, dúvidas e singularidades. Talvez esse seja o princípio de toda expressão artística: ter a coragem de ser quem se é.
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