Outro dia descobri uma coisa desagradável: o tempo está passando.
Sei que não é propriamente uma novidade. Heráclito já desconfiava disso muito antes de inventarem o relógio de pulso, o despertador e — suprema crueldade da civilização — a agenda eletrônica que nos avisa que estamos atrasados para alguma coisa que nem lembrávamos ter marcado.
Mas uma coisa é saber que o tempo passa. Outra, muito diferente, é perceber que ele passou.
A gente acorda numa segunda-feira, toma café, resolve dois problemas, cria outros três, responde algumas mensagens e, quando olha novamente para o calendário, alguém já está perguntando onde vamos passar o Natal.
— Natal? Mas não foi ontem o Carnaval? Não foi.
O problema talvez seja este: nós continuamos nos imaginando mais ou menos os mesmos enquanto o calendário, silenciosamente, vai tratando de desmentir nossa versão dos fatos.
Por dentro, conservamos certas idades. Tenho a impressão de que carregamos conosco todos aqueles que já fomos. O menino continua escondido em algum lugar, o adolescente ainda protesta, o jovem faz planos grandiosos e o adulto tenta explicar aos demais que agora é uma pessoa responsável.
Enquanto isso, o espelho, funcionário público rigorosamente concursado pela realidade, não aceita argumentos. Mostra os autos. E os autos são conclusivos.
Talvez por isso a passagem do tempo nos leve às perguntas que costumamos evitar quando estamos ocupados demais vivendo: o que estou fazendo? Por que corro tanto? Para onde estou indo?
E, sobretudo: quem sou eu no meio dessa confusão toda?
Murilo Mendes escreveu uma frase inquietante: “Não pedi para nascer, não escolhi meus pais, fui imposto a mim próprio, o enigma permanece”.
Pois permanece mesmo.
Nascemos sem preencher formulário, sem assinar contrato e sem receber manual de instruções. Simplesmente nos entregam a existência e dizem:
— Agora se vire.
E nós nos viramos.
Estudamos, trabalhamos, amamos, brigamos, fazemos as pazes, acumulamos objetos, perdemos objetos, encontramos pessoas, perdemos pessoas, ganhamos cabelos brancos e, quando percebemos, passamos boa parte da vida tentando entender exatamente o que deveríamos ter feito com ela.
Há certa comicidade nisso.
O ser humano sabe que sua permanência neste planeta é brevíssima e, mesmo assim, consegue passar três dias sem falar com um irmão por causa de uma frase mal colocada num almoço de domingo.
Sabe que morrerá e discute por uma vaga no estacionamento.
Sabe que tudo termina e passa meia hora respondendo a um desconhecido na internet porque o sujeito teve a ousadia imperdoável de estar errado.
Pior: errado segundo nós.
Porque existe uma característica extraordinária da espécie humana: quase todos estamos convencidos de que o problema da humanidade são os outros.
Os outros são intolerantes. Os outros são egoístas. Os outros não sabem ouvir. Os outros precisam mudar.
Nós, curiosamente, estamos quase prontos.
Só falta o mundo reconhecer.
E assim atravessamos esse pequeno intervalo entre o nascimento e a despedida travando guerras gigantescas e batalhas minúsculas. Algumas nações disputam territórios; alguns vizinhos disputam centímetros de muro. Governantes brigam pelo poder; famílias brigam pela herança; motoristas brigam porque um levou quatro segundos para perceber que o sinal abriu.
Talvez sejamos uma espécie excessivamente ocupada em vencer.
Mas vencer o quê?
E vencer quem?
Afinal, mesmo aquele que consegue derrotar todos os adversários acaba encontrando um competidor invencível: o calendário.
Contra ele não há liminar. Não cabe agravo. Não existe efeito suspensivo. O tempo não aceita recurso. Ele simplesmente continua.
Talvez por isso a verdadeira questão não seja descobrir quanto tempo ainda temos.
Ninguém sabe. A pergunta mais importante talvez seja outra: o que estamos fazendo com o tempo que temos?
Porque justificar a existência não significa necessariamente realizar grandes feitos, erguer monumentos ou deixar o nome gravado numa placa de bronze.
Talvez seja muito mais simples.
Pode estar numa conversa que não adiamos.
Num abraço que damos enquanto ainda há alguém para recebê-lo.
Num pedido de desculpas feito antes que o orgulho transforme alguns minutos de coragem em anos de arrependimento.
Pode estar numa mesa de café, numa gargalhada inesperada, numa amizade preservada, numa palavra dita na hora certa.
Talvez viver seja isso: deixar pequenas provas de que estivemos aqui.
Não precisamos resolver o enigma da existência.
Talvez ele tenha sido feito justamente para permanecer enigma.
Mas podemos escolher a maneira de atravessá-lo.
E, se me permitem uma sugestão, seria prudente atravessá-lo com um pouco menos de pressa, um pouco menos de razão absoluta e um pouco mais de humor.
Porque, no fim das contas, somos todos passageiros do mesmo veículo.
Ninguém conhece exatamente o destino.
Ninguém sabe a hora da chegada.
E nenhum de nós tem passagem de volta.
Portanto, enquanto o tempo passa — e ele passa com uma falta de cerimônia impressionante — talvez devêssemos fazer alguma coisa simples e revolucionária: viver antes que a vida vire lembrança.
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