Olá, cívicos legentes!
E lá se foi mais um Sete de Setembro… E lá se foram 204 anos desde a nossa Independência neste Brasil de nossa-senhora-do-ai-meu-pai-que-o-senhor-nos-proteja.
Cada vez mais eu penso que votar é preciso, mas eleger não é preciso. E antes que digam que estou desincentivando o voto, já enfatizo que é justamente o contrário disso.
O que eu quero dizer é que, ao registrar nossas intenções nas teclas numéricas das urnas eletrônicas — as quais defendo com veemência —, depositamos nossos sonhos, esperanças e utopias democráticas de modo necessário à construção de um amanhã mais justo, mais igualitário, sempre desejosos de um Estado voltado ao bem-estar social. Mas isso nunca é “preciso” sob o aspecto do acerto de nossas escolhas, que felizmente ainda podemos realizar de maneira livre e direta.
Não irei, aqui, defender qualquer tipo de ideologia, embora eu queira uma para viver. Uma que atenda a todos, sem qualquer distinção: algo como a Constituição estabelece.
Compreender que a Constituição Federal nos assegura, logo nos seus primeiros passos, a dignidade, a liberdade, a igualdade e a vida não é apenas aprender teoria jurídica, mas entender o tamanho do chão onde pisamos todos os dias.
O Brasil prometeu a si mesmo que ninguém seria tratado como menor, que a lei valeria para todos sem distinção de cor, crença ou classe, e que expressar o que pensamos seria um direito sagrado e intocável. Só que essas garantias fundamentais não são monumentos de pedra imunes ao tempo; são plantas delicadas que precisam ser regadas com frequência. E o regador, gostemos ou não, é o voto: cada eleição é o momento exato em que decidimos quem vai cuidar desse nosso jardim coletivo, que vive sendo invadido por ervas daninhas. É nas eleições que escolhemos se entregaremos o texto que nos protege a mãos que o respeitam, ou a braços que gostariam de rasgá-lo.
Ocorre que as coisas estão cada vez mais complexas de serem analisadas por nós, em parte porque há interesse nesse tipo de estratégia de desnorteamento público; em parte porque deixamos isso acontecer pouco a pouco, ao longo de séculos, como quem deixa o jardim sem cuidados e depois reclama das pragas.
Porque democracia, no fim das contas, não é um evento que acontece de dois em dois anos nem uma senha digitada na urna para que depois possamos voltar tranquilamente ao sofá da indiferença. Democracia é vigília. É o trabalho incômodo de acompanhar quem foi eleito, cobrar coerência entre discurso e prática, desconfiar dos salvadores da pátria, defender instituições mesmo quando elas nos contrariam e reconhecer que nenhum direito permanece de pé apenas porque um dia foi escrito em papel timbrado. Votar é assumir o jardim; cuidar dele exige presença diária, exige saber distinguir adubo de veneno, exige não aplaudir quem pisa nos canteiros só porque promete arrancar as ervas daninhas dos outros. Se o voto escolhe jardineiros, a democracia pergunta, todos os dias, se nós ainda estamos dispostos a fiscalizar a poda, dividir a água e impedir que alguém transforme o espaço comum em quintal particular.
É bacana ter um feriadão do tipo Sete de Setembro, mas não dá para sair e aproveitá-lo se o mato do jardim estiver tão alto a ponto de impedir o passeio.
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