Artista de Vinhedo participa do Salão de Artes Visuais 2026 com “Estigma”, escultura que provoca o público a refletir sobre fome, desejo, julgamento e os limites impostos ao corpo contemporâneo
A relação de Elen Neme Medeiros Xavier com a arte começou ainda na infância, dentro de casa. Filha de pais que também desenhavam, ela encontrou nos materiais disponíveis uma forma de transformar imaginação em criação. As contracapas dos livros de receitas da mãe, por exemplo, viravam espaço para seus primeiros croquis — uma lembrança que ajuda a explicar a relação afetiva que mantém com a arte até hoje.


Nascida em São Paulo e moradora de Vinhedo, Elen atua profissionalmente com arte desde 1998. A princípio, sonhava em trabalhar com moda e tinha o estilista Clodovil como uma de suas referências. Com o passar dos anos, porém, percebeu que seu caminho estava nas artes plásticas. Vieram os estudos, pesquisas e experimentações que ajudaram a construir uma produção marcada pela natureza, pelo tempo, pelas memórias e pelas imperfeições.
Essa trajetória agora ganha espaço no Salão de Artes Visuais 2026, onde apresenta “Estigma”, uma escultura produzida em cerâmica fria. A obra coloca em cena uma barriga moldada manualmente e uma agulha industrial de 50 centímetros, suspensa e sem tocar o corpo.
A distância entre os dois elementos é justamente onde está uma das principais provocações da artista. Inspirada nos debates atuais sobre tratamentos para obesidade e diabetes, a obra aborda três dimensões: a fome física, o aspecto emocional e o estigma social relacionado ao peso, além das diferenças de acesso aos tratamentos.
“Estigma” não busca oferecer respostas prontas. Ao contrário, convida o espectador a se posicionar diante da discussão: de que lado da seringa você está?
Para Elen, estar no Salão representa reconhecimento e, sobretudo, a oportunidade de estabelecer um diálogo maior com o público. Sua expectativa é que as pessoas desacelerem diante de suas obras e percebam valor naquilo que carrega marcas, imperfeições e a passagem do tempo.
Com trabalhos que transitam por aquarela, óleo, acrílica, pastel, lápis de cor, stencil, cerâmica fria, gesso, ferro e madeira, a artista segue construindo uma trajetória baseada na pesquisa e na experimentação. No SAV 2026, entretanto, sua obra assume um papel ainda mais provocador: não pode ser tocada, mas foi criada para tocar quem a observa.