Olá, legentes!
Por esses dias, a pedido de meu dentista e por conta da pressão e dos impactos — fortíssimos — que minha tensa mandíbula exerce sobre meus dentes, respondi a uma infinidade de perguntas num questionário clínico digital.
O tal inquérito, digo, questionário, dividido em cinco seções, foi a lugares só antes investigados nas minhas sessões de análise psicoterapêutica. Uma verdadeira escavação exploratória de minha psique.
Responder ao famigerado questionário me deixou tão mais tenso que quase desmarquei a próxima consulta com o dentista, mesmo sob o risco de perder meus dentes, para pedir um atendimento de urgência com a psicóloga.
Não tenho mais os sisos: foram extraídos na adolescência, quando ainda nem haviam apontado na boca. Por uma semana, parecia estar com caxumba bilateral grave. Para não dizer que foi de todo ruim, houve a dieta à base de sorvete.
Então, essa coisa de juízo — de siso — sempre me faz pensar no quanto somos capazes de, em nome de nossos valores morais — disse morais, e não Moraes —, julgar a nós mesmos e aos outros.
Ninguém aperta tanto os dentes quanto quem vive sob o peso excessivo das próprias cobranças.
Eis que o juízo, além de morar na cabeça — e, no meu caso, já não morar nos sisos —, também frequenta tribunais imaginários, sentenças, opiniões e aquelas conversas em que todo mundo sabe exatamente o que o outro deveria ter feito. É uma palavra de muitas sessões, digo, acepções.
Há o juízo que pondera, o que compreende, o que previne o perigo e o que, de toga imaginária, condena sem direito a recurso. Esse último costuma trabalhar em regime de plantão, sobretudo nas redes sociais e nas reuniões de família.
Mas talvez quem nos julgue esteja apenas tentando pôr alguma ordem no próprio foro íntimo, onde as provas nunca chegam completas, cada testemunha conta uma versão e ninguém sabe ao certo quando deixou de ser juiz para virar réu. Julgá-lo de volta seria responder a uma pressão com outra pressão — e meu dentista já explicou onde isso vai dar.
Não julgar quem nos julga não significa concordar, absolver ou oferecer a outra mandíbula. Significa ter juízo no sentido de siso, ainda que sem os dentes: respirar, ponderar e não transformar cada opinião alheia num processo. Porque, conforme venho descobrindo, preservar o juízo às vezes é só afrouxar a mandíbula.
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