

“O problema não é a desigualdade. É a encenação.” (Millôr Fernandes)
No Brasil, falar de dinheiro é deselegante. Exibir dinheiro, porém, é quase um dever cívico. Há uma regra tácita: ninguém pergunta quanto você ganha, mas todos precisam adivinhar — de preferência pelo relógio, pelo carro, pelo sobrenome duplo ou pelo fato de você chamar a empregada de “colaboradora”.
Somos uma sociedade profundamente apaixonada pela pirâmide social, desde que ela não seja desenhada no papel. Ela precisa existir apenas no olhar: um olha para cima com admiração, outro olha para baixo com culpa cuidadosamente administrada, e todos fingem que estão no meio.
Na base da pirâmide, está o pobre. Não o pobre romântico das novelas, mas o real: aquele que paga boleto em três vezes e chama parcelamento de planejamento financeiro. Ele sabe exatamente quanto custa o arroz, mas jamais saberá quanto custa um jantar “despretensioso” no restaurante da moda. O pobre não ostenta — no máximo, posta foto do churrasco com a legenda “gratidão”.
Logo acima, surge o pobre premium. É o pobre que ascendeu um degrau e agora acredita firmemente que “não é mais como os outros”. Compra iPhone parcelado em 24 vezes, chama o crediário de investimento e jura que está a um bônus de distância da riqueza. Ele não é rico, mas já aprendeu o mais importante: desprezar quem ficou embaixo.
Mais acima, o classe média aspiracional, também conhecido como “rico de fim de semana”. Durante a semana, sofre; no sábado, ostenta. Vive endividado, mas elegante. Não tem dinheiro sobrando, mas tem opinião econômica. Defende meritocracia com a convicção de quem recebeu ajuda, mas prefere chamar de “esforço pessoal”.
Depois, entramos na área nebulosa dos ricos declarados. Esses já não sabem exatamente quanto ganham — sinal inequívoco de prosperidade. Não falam de dinheiro porque “não é importante”, embora todas as decisões da vida girem em torno dele. Viajam para “se desconectar”, mas fazem questão de postar para provar que conseguiram.
No topo, quase fora do campo de visão, estão os ricos de verdade. Esses não ostentam; fazem o possível para parecer que sempre foram assim. Não dizem “quando eu fiquei rico”, mas “quando eu tinha vinte anos”. Não compram coisas; “adquirem”. Não sobem na pirâmide — nasceram no último andar e chamam isso de discrição.
O curioso é que, no Brasil, ninguém se declara rico. Todos conhecem alguém mais rico. A riqueza é sempre o outro. O dinheiro é tabu, mas a aparência é obsessão. É preciso parecer rico, porque ser é secundário. Afinal, numa sociedade em que o valor não está no que se é, mas no que se mostra, a pirâmide não é econômica — é estética.
E assim seguimos: subindo degraus imaginários, disputando lugares invisíveis, fingindo que a escada é justa, enquanto o elevador — esse, reservado a poucos — continua quebrado para a maioria. Mas não comentemos valores.
Não fica bem. É falta de educação.
E, convenhamos, a pobreza alheia sempre constrange mais do que a própria.
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