

Há pessoas que vivem exatamente no seu tempo.
Outras, porém, carregam a estranha condenação de nascer décadas adiante dele.
Flávio de Carvalho talvez tenha sido uma dessas pessoas.
Em 1956, caminhou pelas ruas de São Paulo usando saia plissada e mangas bufantes. Chamou aquilo de “Experiência nº 2”. Não buscava aplausos fáceis, nem pretendia divertir multidões. Seu gesto era quase um bisturi social atravessando a rigidez masculina de uma época vestida de gravatas, convenções e silêncios.
Imagino os olhares atravessados. Os cochichos apressados. Os risos nervosos. Talvez até a indignação.
Mas hoje, em tempos de debates sobre identidade, liberdade estética e comportamento, a cena parece menos escandalosa do que profética. Flávio talvez não estivesse afrontando o futuro. Talvez estivesse apenas vivendo nele antes dos demais.
E pensar que esse homem mantém profundas ligações com Valinhos.
Muita gente talvez ignore que a Fazenda Capuava — uma das ousadias arquitetônicas do modernismo brasileiro — nasceu justamente de sua mente inquieta. Em meio ao verde do interior paulista, ergueu-se uma construção que parecia desafiar não apenas a engenharia da época, mas a própria monotonia estética das cidades interioranas.
Como se a vanguarda tivesse decidido morar entre árvores, terra vermelha e horizontes silenciosos.
Mais curioso ainda é saber que Flávio de Carvalho presidiu a Comissão de Artes Plásticas ligada à cultura valinhense.
Há nisso uma ironia quase poética.
Enquanto a cidade seguia sua rotina tranquila, talvez convivesse com um dos espíritos mais rebeldes e visionários da arte brasileira.
Chamado de “revolucionário romântico” por Le Corbusier, Flávio não produzia apenas arte. Produzia desconforto. Seus retratos de Oswald de Andrade e Mário de Andrade carregam inquietação humana. Seu Teatro da Experiência afrontava moralismos. Sua obra “Bailado do Deus Morto”, censurada em 1933, parecia anunciar um artista permanentemente disposto a enfrentar as estruturas mais sagradas da sociedade.
E talvez tenha sido exatamente isso que senti recentemente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), diante da tela “A Inferioridade de Deus”, pintada em 1931.
Não era apenas um quadro. Era um enfrentamento silencioso.
O título, sozinho, já parece atravessar o visitante como uma pergunta proibida. E diante daquela pintura compreendi que Flávio de Carvalho jamais criou arte para ornamentar paredes ou agradar sensibilidades acomodadas. Sua obra parecia existir para desarrumar certezas.
Fiquei ali por alguns instantes observando a tela. Ou talvez sendo observado por ela.
Porque certas obras não se deixam contemplar passivamente. Elas interrogam quem está diante delas.
Ao sair do museu, levei comigo a sensação de que Flávio continua perigosamente atual. Ainda hoje sua arte provoca o mesmo desconforto que a sociedade costuma sentir diante daqueles que ousam pensar diferente.
No fundo, talvez o tempo seja cruel com os visionários. Primeiro os chama de excêntricos. Depois de loucos.
E somente muitos anos mais tarde percebe que eram apenas homens que chegaram cedo demais.
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