A Última Monarquia

Dizem que as monarquias acabaram.

Será?

Olho em volta e começo a desconfiar.

Os reis desapareceram, é verdade.

As coroas foram parar nos museus.

Os cetros perderam a utilidade.

Mas os privilégios… esses aprenderam a usar gravata.

Antigamente, governar era simples.

Bastava construir castelos altos e manter o povo longe das letras.

Quem não lia obedecia.

Quem obedecia produzia.

Quem produzia enriquecia a Coroa.

Era um modelo eficiente.

Cruel, mas eficiente.

Séculos depois, abolimos os reis.

Abolimos os títulos de nobreza.

Abolimos as carruagens douradas.

Mas, curiosamente, nunca abolimos a velha tentação de governar um povo que não faz perguntas.

Há uma cena curiosa que se repete todos os dias.

Entramos numa livraria.

Os corredores estão vazios.

Saímos dali e passamos diante de uma fila quilométrica para comprar o celular mais novo.

O aparelho custa uma pequena fortuna.

O livro custa menos que uma pizza.

Mesmo assim, dizemos que livro é caro.

Talvez não seja o preço.

Talvez seja o hábito.

Nunca houve tanto acesso ao conhecimento.

Uma biblioteca inteira cabe dentro do bolso.

Machado de Assis viaja no metrô.

Platão espera numa sala de aeroporto.

Kant repousa dentro de um telefone celular.

Jamais foi tão fácil aprender.

E, paradoxalmente, nunca pareceu tão fácil desistir.

Não porque alguém tenha fechado as bibliotecas.

Mas porque descobriram uma arma muito mais eficiente: a  distração.

O cidadão permanentemente distraído não precisa ser censurado.

Ele próprio abandona a leitura antes que a leitura transforme sua maneira de enxergar o mundo.

Costuma-se repetir que brasileiro não gosta de ler.

Tenho minhas dúvidas.

Durante séculos, quase tudo conspirou para que a leitura fosse privilégio de poucos.

Primeiro proibiram as tipografias.

Depois retardaram escolas.

Universidades chegaram quando outros países já colecionavam séculos de vida acadêmica.

A história não explica tudo.

Mas explica muito.

E explica, sobretudo, que certas desigualdades não nascem por acaso.

Elas são construídas.

Mas aqui mora a ironia.

Se ontem faltavam livros…

Hoje sobra acesso.

Se ontem havia portas fechadas…

Hoje elas estão escancaradas.

A responsabilidade mudou de endereço.

Já não podemos culpar apenas os antigos senhores.

Há um senhor moderno muito mais difícil de derrotar: a preguiça intelectual.

Ela veste roupas elegantes.

Atende pelo nome de “depois eu leio”.

Responde por “não tenho tempo”.

Esconde-se atrás do “vi um vídeo explicando”.

E vai nos convencendo, lentamente, de que pensar profundamente é um luxo.

Não é.

É sobrevivência.

Immanuel Kant escreveu, em 1784, duas palavras que continuam perigosas: Sapere aude. Ouse saber.

Nunca foi apenas um conselho.

Sempre foi uma convocação.

Porque quem aprende a pensar começa a enxergar.

Quem enxerga começa a comparar.

Quem compara deixa de aceitar privilégios como se fossem direitos naturais.

E é exatamente aí que toda elite — econômica, política, ideológica ou cultural — começa a sentir um discreto desconforto.

Não importa quem esteja no poder.

Importa que nenhum poder aprecia cidadãos que fazem perguntas difíceis.

Talvez seja por isso que os verdadeiros reis nunca tenham usado coroa.

Usaram ignorância.   

E descobriram que ela pesa muito menos sobre a cabeça de quem a carrega do que sobre os ombros de quem é governado.

No fim, a velha monarquia continua existindo.

Mudou apenas de uniforme.

E continua reinando sobre todos aqueles que terceirizam o próprio pensamento.

Porque um povo pode perder dinheiro.

Pode perder eleições.

Pode perder guerras.

Mas, quando perde o hábito de ler e de pensar, entrega espontaneamente aquilo que nenhuma revolução consegue devolver por inteiro: a própria liberdade.

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