

De repente, toca o celular. Atendo. É da portaria do condomínio:
— Doutor Vilela, o senhor tem visita. Edson Augusto Ribeiro.
O nome ecoa formal demais para a memória apressada da manhã. Edson Augusto Ribeiro? Não reconheço. Chamo Mirian.
— Quem é Edson Augusto Ribeiro?
— Vilela… o Edson. Motorista do Professor Carbonari. Agora da Maria Elisa. Viajamos juntos para Ilhabela… esqueceu?
Ah, claro. Edson. Não Edson Augusto Ribeiro — nome de diplomata, como brinquei depois.
Libero a entrada. Poucos minutos depois, a campainha toca. Abro a porta.
Edson está ali, respeitoso, firme, trazendo nas mãos uma maleta de couro preto. Fina. Elegante. No centro, em prata lavrada, três letras: ACN.
— Doutor Vilela, trago-lhe esta maleta. Pertenceu ao Professor Antonio Carbonari Neto. Dona Maria Elisa pediu que eu a entregasse ao senhor, como recordação do saudoso Mestre.
Há presentes que pesam mais que o couro. Recebo-a quase em silêncio, porque a emoção é uma forma elevada de oração. Não é apenas um objeto. É um relicário de jornadas.
Aquela maleta não carregava papéis. Carregava projetos. Não guardava documentos. Guardava destinos.
Fico imaginando quantas vezes esteve em Brasília — nas reuniões do Conselho Nacional de Educação, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, nos corredores do Ministério da Educação, do Planejamento, nas comissões da Câmara e do Senado. Quantas vezes repousou sobre mesas onde se discutia o futuro do ensino superior brasileiro.
Quantas viagens internacionais a acompanharam. Quantos debates nos Estados Unidos, na MUST University, quantas palestras, quantas negociações, quantos sonhos alinhados com investidores quando a Anhanguera Educacional ousou abrir capital na Bolsa de Valores.
Mas, acima de tudo, quantas vezes essa maleta atravessou cidades do interior — Leme, Valinhos, Jundiaí, Pirassununga, Araras, Porto Ferreira, Campinas, São Paulo — levando dentro dela a ideia que transformaria tantas vidas.
Porque o Professor Carbonari não pensava pequeno. Ele pensava acesso. Pensava em transformar exclusão em chegada. Ele compreendia algo que muitos teóricos ignoram: educação não pode ser privilégio de poucos. Tem de ser ponte. Tem de ser estrada iluminada para quem nasce longe dos grandes centros, longe dos sobrenomes tradicionais, longe das heranças financeiras.
Foi isso que ele fez.
A Rede Anhanguera de Educação Superior — com seus Centros Universitários, faculdades e cursos espalhados pelo país — não nasceu apenas como empreendimento. Nasceu como projeto social estruturado. Democratizou o acesso ao ensino superior quando este ainda parecia inalcançável para a população de baixa renda.
O menino da periferia passou a poder sonhar com diploma universitário. A trabalhadora noturna passou a poder estudar depois do expediente. O filho do operário passou a frequentar uma sala de aula universitária.
Isso não é estatística. É revolução silenciosa.
No tributo que escrevi sobre ele — “Um Legado de Educação e Empreendedorismo” — recordei que há vidas que não se apagam. Apenas mudam de endereço. E é verdade. O Professor Carbonari mudou de endereço. Mas continua presente nas bibliotecas, nas colações de grau, nas primeiras assinaturas de carteira profissional de milhares de ex-alunos.
Ele liderava servindo. Servia liderando. Tinha a firmeza do gestor, mas a ternura do educador. Corrigia com precisão matemática, mas aconselhava com humanidade. Sabia que planilhas organizam instituições — mas são pessoas que transformam o mundo.
E agora, diante dessa maleta, eu penso:
— Quantos sonhos ela ouviu? Quantos planos nasceram enquanto ele a fechava após uma reunião? Quantas decisões importantes foram tomadas enquanto suas mãos repousavam sobre esse couro?
Talvez eu passe a usá-la para abrigar meu notebook, minhas canetas, meus papéis. Mas não será apenas funcionalidade. Será homenagem.
Toda vez que a abrir, lembrarei que ela pertenceu a um homem que acreditava que o Brasil poderia ser melhor pela educação. Que acreditava no interior. Que acreditava nos jovens. Que acreditava na capacidade de ascensão social pelo estudo.
E, mais do que isso, lembrarei do amigo. Porque antes do reitor, do conselheiro do CNE, do empreendedor reconhecido internacionalmente, havia o Antonio. O homem de sorriso sereno. O visionário incansável. O concunhado querido, cuja presença iluminava as conversas e cuja ausência agora nos ensina a valorizar ainda mais o que permanece.
A maleta está aqui, ao meu lado. Fechada. Mas cheia. Cheia de memória. Cheia de legado. Cheia de futuro.
E enquanto houver um estudante de baixa renda entrando numa universidade que antes lhe era impossível, o Professor Carbonari continuará viajando.
Talvez não mais de avião. Mas dentro da história do Brasil.
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