O ópio, as bets e os Damiões

Olá, futebolísticos legentes!

Foto: Divulgação/Adidas

Em 2022, ano em que foi publicado meu livro de estreia, Contos em realidade aumentada, o mundo começava a respirar melhor, passados os piores dias da COVID-19, que deixaram tantas marcas.

Mais uma vez, era ano de Copa do Mundo, à qual se seguiriam as eleições.

Como todo brasileiro que aprecia o chamado esporte bretão, reservei em meu livro um espaço para o futebol, paixão nacional.

Em “Damião”, conto de abertura do livro, o protagonista é um sujeito bom de bola, nascido em uma comunidade muito carente e violenta, onde cresceu e morreu sem conseguir vencer.

“Lá pelos quinze minutos de jogo, escanteio contra o time de Damião. A bola veio alta, girando sobre seu próprio eixo, como um astro em órbita, tornando-a protagonista, atraindo todas as atenções, mas também espectadora, capaz de ver as torcidas se levantando. Meganha tinha os olhos avermelhados, fixos em Damião, que se movia como na capoeira, gingando, abrindo espaços, em meio a empurrões e o goleiro aflito, enquanto ela desenhava sua curva rápida e descendente para o centro da pequena área. Damião, assumindo o papel principal, subiu mais que os outros, antecipou a cabeçada e alterou a rota, desviando a pelota para o lado oposto ao da cobrança. Foi na descida de Damião que um dos soldados do Meganha subiu e, na maldade, usando o cotovelo, quebrou-lhe o nariz, fazendo descer o melado até o queixo.”

Nessa cena, Damião reflete um pouco do dia a dia do brasileiro, que precisa gingar, abrir espaços e livrar-se dos empurrões na tentativa de defender o que é seu por direito. E não faltam cotoveladas para nos quebrar e fazer sangrar.

Mais adiante, no conto, Damião tem seu revide em campo, o que apenas endurece ainda mais sua vida.

Naquela partida que disputava, tudo foi armado contra ele: Damião era desafeto do dono do morro, chefe do tráfico.

Mas, sem revelar aqui o desfecho da história de Damião, eu pergunto: o que isso nos diz sobre a nossa realidade? Que partidas estamos jogando todos os dias? Quem está mandando nelas?

Agora, o ano é 2026. A Copa do Mundo está logo aí, com todo o seu ópio para o povo, com seus cartolas e suas “bets” a comandá-la e a quebrar os narizes de tantos Damiões. As eleições também já vêm aí.

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