

Olá, legentes!
O filósofo Sócrates dizia saber que nada sabia. Essa autodeclaração de “ignorância” é, hoje, um convite para pensarmos sobre quem nos controla a partir desse pensamento. Será que alguma força, sistema ou ideia ainda detém tal poder?
Daqui de minha douta ignorância socrática, lugar em que nada sei e tudo penso, pergunto: quem nos compreende, vigia ou controla?
Vivemos sob o olhar espião das câmeras; da escuta invasiva dos microfones de nossos celulares ou outros equipamentos ouvintes; da perseguição dos satélites de localização e dos algoritmos que interpretam nossos desejos. Nosso comportamento nunca foi tão observado, tão analisado, senão por algum deus onisciente, onipresente, onipotente.
Historicamente, as religiões ditaram limites claros ao comportamento humano. O filósofo Nietzsche, ao ser “acusado” de matar Deus, não o fez, mas apontou a superação de um modelo que, para ele, havia perdido a força de regular os desejos humanos e por consequência nosso comportamento em sociedade. Se podemos dizer que os modelos religiosos podem ter sofrido um enfraquecimento, surgiram novas formas de vigilância: as tecnologias. George Orwell antecipou um futuro em que câmeras assumiriam tal função, monitorando e inibindo desvios morais. Mas esse futuro já chegou e não produziu tais efeitos, penso socraticamente.
Se por um lado os modelos religiosos, na visão de Nietzsche, não se ajustavam mais como modelo de moral em sua época, tampouco a tecnologia e seus mecanismos de vigilância o fazem.
Sabemos que somos observados, mas, ao contrário do que se imaginava, o ato de sermos vigiados não tem servido como organismo de controle da moralidade. Ao contrário, atua como impulsionador de desejos, promovendo o descontrole social.
Um episódio recente em um reality brasileiro, onde um participante assediou sexualmente uma mulher diante de milhões, ilustra bem essa inversão. Não faltavam olhos atentos ou regras rígidas de conduta, mas isso não o impediu de cometer um crime.
A tecnologia, antes vista como instrumento de controle, tornou-se, de forma curiosa, um agente que estimula nossos desejos. Os algoritmos pesquisam nossas preferências, sugerem conteúdos, reforçam pulsões. O olhar vigilante das câmeras já não nos coíbe; ele nos serve, nos entretém, nos alimenta. Crimes são filmados, compartilhados e até comemorados em determinados grupos. — a sociedade parece ter perdido a capacidade de se escandalizar.
Diante disso, resta-nos perguntar: como controlar uma população de bilhões sem recorrer às tiranias, às tão questionáveis religiões ou ao “dataísmo” — de Harari?
A resposta não está em mecanismos externos, mas em processos internos — na construção coletiva de uma nova consciência moral que não seja centrada no individualismo. A vigilância banalizada não educa, apenas expõe. A tecnologia, em lugar de agir como uma entidade dionísica da insânia, deveria ser ferramenta de reflexão, de promoção do diálogo e da ética.
O caminho do controle social justo e humano talvez passe pelo reconhecimento socrático de nossa ignorância, pela disposição ao questionamento e pela busca por equilíbrio. Só assim, entre liberdades e limites, poderemos construir uma convivência verdadeiramente saudável.
No final, talvez a pergunta não seja o que nos controla, mas como podemos aprender a controlar a nós mesmos, sem cair no vazio da vigilância sem sentido, nem no abismo dos impulsos desenfreados. A reflexão é urgente. Só sabemos que nada sabemos, mas podemos — e devemos — pensar juntos.
Quer saber as últimas notícias de Valinhos, siga o nosso Instagram: https://www.instagram.com/jornalterceiravisao/