Simone Andreazzi defende atualização do ECA diante de casos como o de Íthalo Santos e aponta papel essencial das famílias na proteção digital


A recente denúncia feita pelo influenciador Felca, que resultou na prisão de Hytalo Santos — acusado de produzir conteúdos com sexualização precoce de adolescentes, assédio e exploração de menores — reacendeu o debate sobre os limites da exposição de crianças e adolescentes no ambiente digital e a necessidade de responsabilizar também as plataformas que hospedam esse tipo de conteúdo.
Para a neuropsicopedagoga Simone Andreazzi — diretora escolar da EMEB Municipal, fundadora do projeto Olhar Pedagógico e escritora de literatura infantojuvenil — a adultização precoce é um fenômeno em que crianças e adolescentes assumem papéis e comportamentos da vida adulta antes do tempo adequado, influenciados por fatores culturais, econômicos ou sociais. “Os impactos atingem pilares psicológicos, sociais, educacionais e afetivos, podendo comprometer o próprio futuro desses jovens”, explica. Entre os prejuízos estão ansiedade, sobrecarga emocional, queda no rendimento escolar, baixa autoestima e dificuldades de inserção social.
Historicamente presente em contextos de sobrevivência, a adultização ganhou força e velocidade com as redes sociais. Antes, estava relacionada à necessidade de trabalho precoce e responsabilidades familiares. Hoje, a internet impulsiona o processo ao expor menores a padrões de beleza, sexualidade e consumo incompatíveis com seu estágio de desenvolvimento. “As plataformas digitais aceleram a exposição e, embora o Marco Civil da Internet limite sua responsabilidade, o debate jurídico atual — incluindo propostas como a atualização do ECA Digital — aponta para a necessidade de ampliar essa responsabilização”, avalia Simone.
Entre as práticas que favorecem a exposição indevida está o sharenting, quando pais ou responsáveis compartilham excessivamente a vida dos filhos nas redes. “Se houver violação de direitos, pode configurar exploração infantil, especialmente quando a exposição gera lucro ou coloca a criança em risco. Não basta culpar só as plataformas: as famílias têm papel fundamental nessa proteção”, ressalta.
Em Valinhos, Simone relata que casos frequentes envolvem mães adolescentes sem estrutura emocional para criar os filhos, situação agravada pela falta de apoio familiar e educacional. Além disso, ela alerta para o risco de conteúdos aparentemente inofensivos. “Não é brincadeira inocente quando uma criança faz coreografias sensuais ou usa maquiagem pesada para vídeos. Isso abre portas para assédio e erotização precoce, e as famílias precisam se conscientizar”, reforça.
O Projeto de Lei 2628/2022, que tramita na Câmara dos Deputados, prevê medidas para impedir o acesso de menores a serviços e produtos digitais inadequados. Simone considera a proposta positiva, mas insuficiente. “Quem leva o menor até esse ambiente? Só a plataforma é culpada ou também quem expõe? É uma responsabilidade compartilhada: família, sociedade, escola e órgãos de proteção precisam agir juntos”, defende.
Para a especialista, o caminho é a ação coletiva. Isso envolve leis mais rígidas, educação digital nas escolas, diálogo aberto entre pais e filhos e uma postura ativa da sociedade em denunciar e não consumir conteúdos que explorem a infância. “A proteção é responsabilidade de todos nós. É preciso garantir que as crianças completem suas fases de desenvolvimento com segurança, respeito e cuidado”, conclui.