Tratamento Ludovico

O primeiro contato que tive com “Laranja Mecânica”, Anthony Burgess, 1962, — A Clockwork Orange – título original — não foi através do livro, mas pelas lentes de Stanley Kubrick, 1971, película que vi e revi várias vezes, talvez pela dificuldade de digeri-la.

Não é um filme fácil de se ver, mas posso dizer que é mais leve que o livro de Burgess, onde a violência da gang — “drugges” — de Alex DeLarge, interpretado no cinema pelo impressionante ator britânico Malcolm McDoweell é bem mais aguda e detalhada.

Para quem não teve contato com o livro ou filme, a história gira em torno do comportamento de “ultraviolência” de Alex e seus amigos, sob efeito do “moloko”, servido numa espécie de leiteria, onde o leite é apenas o excipiente líquido da solução oral “batizada” no local.

Alex, julgado por conta de seus atos de agressividade extrema, aceita ser submetido a um tratamento destinado à inibição de sua personalidade violenta, através de um tipo de terapia behaviorista — fictícia — chamada de tratamento Ludovico.

Foto: Reprodução

Por semanas, Alex foi submetido a intensas sessões, onde passou horas, sendo obrigado a ver cenas violentas, enquanto ouvia Beethoven — seu compositor favorito — e administravam-lhe drogas capazes de gerar aversão à violência, num processo de condicionamento respondente.

Na distopia de Burgess, o tratamento tem efeito temporário sobre Alex, que por um tempo se torna incapaz de praticar ou reagir contra um ato violento. Porém, a sua repulsa desaparece após um episódio de estresse pós-traumático, seguido de uma tentativa de suicídio.

Mas onde quero chegar? — Deve estar perguntando o caro leitor.

Há poucos dias, imagens capturadas por um drone, mostraram cidadãos palestinos sendo mortos a tiros, por soldados israelenses, em meio à distribuição de alimentos, via ajuda humanitária. Cenas que deveriam chocar qualquer ser humano.

Ocorre que nem todos, atualmente, são impactados por esse tipo de imagem.

A meu ver, estamos tão submetidos a imensas doses de brutalidade, que perdemos grande parte de nossa capacidade de reagir com a devida aversão a atos brutais.

Seja rolando a tela dos canais das mídias corporativas ou das redes sociais, a violência é vista com tremenda frequência, impulsionada pelo nosso mórbido interesse por situações de drama extremo.

É possível que o fato de vermos dramas mais intensos que os nossos, nos deixe mais “confortáveis” em nossa mediocridade e talvez por isso o interesse seja tão elevado.

O problema é que passamos a nos habituar às mais diversas formas de violência que a Internet exibe e com isso, banalizamos o impacto que as mesmas têm sobre nossa capacidade de sentir o mal imposto ao próximo e a nós próprios.

Um rolar de tela e a cena de um gatinho descendo a escada é capaz de alterar nossa dor. Diante de uma dose de recompensa em forma de fofura felina ou de qualquer outro tipo de “meme”, somos anestesiados.

É óbvio que nem todos se deixam enganar e ainda resta alguma esperança em parte da humanidade, capaz de refletir sobre esse enorme abismo que nos metemos.

Vivemos um tempo onde enxergar a realidade tornou-se uma espécie de dom quase divino, capaz de ver além das inverdades que se multiplicam de forma exponencial, principalmente nos ambientes digitais.

Eu sei que houve muitos protestos contrários às exageradas ações do Estado de Israel contra o Hamas.

Ocorre que o justificado direito de resposta de Israel ultrapassou inúmeros limites humanitários e tornou-se tão ou mais cruel que os praticados por seus inimigos terroristas.

Milhares de palestinos inocentes, — na maioria mulheres e crianças — perderam suas vidas, sem qualquer direito de defesa.

Mas o quanto isso nos sensibilizou e mobilizou, em defesa da vida dos inocentes?

A carga expressiva de violência dispersa na Internet nos afetou a tal ponto, que nossa indignação diante das mais variadas formas de guerra não nos revolta tanto quanto antes. Estamos inertes e nossos líderes mundiais também.

A pulsão de morte encontrou na Internet uma terra fértil e isso está se replicando no mundo real, enquanto deixamos nossos “corações” em forma de likes nas redes sociais.

Sofremos todos, sem perceber, o tratamento Ludovico e nos tornamos majoritariamente incapazes de reagir contra as formas de violência, mas não de curti-las.

O primeiro contato que tive com “Laranja Mecânica”, Anthony Burgess, 1962, — A Clockwork Orange – título original — não foi através do livro, mas pelas lentes de Stanley Kubrick, 1971, película que vi e revi várias vezes, talvez pela dificuldade de digeri-la.

Não é um filme fácil de se ver, mas posso dizer que é mais leve que o livro de Burgess, onde a violência da gang — “drugges” — de Alex DeLarge, interpretado no cinema pelo impressionante ator britânico Malcolm McDoweell é bem mais aguda e detalhada.

Para quem não teve contato com o livro ou filme, a história gira em torno do comportamento de “ultraviolência” de Alex e seus amigos, sob efeito do “moloko”, servido numa espécie de leiteria, onde o leite é apenas o excipiente líquido da solução oral “batizada” no local.

Alex, julgado por conta de seus atos de agressividade extrema, aceita ser submetido a um tratamento destinado à inibição de sua personalidade violenta, através de um tipo de terapia behaviorista — fictícia — chamada de tratamento Ludovico.

Por semanas, Alex foi submetido a intensas sessões, onde passou horas, sendo obrigado a ver cenas violentas, enquanto ouvia Beethoven — seu compositor favorito — e administravam-lhe drogas capazes de gerar aversão à violência, num processo de condicionamento respondente.

Na distopia de Burgess, o tratamento tem efeito temporário sobre Alex, que por um tempo se torna incapaz de praticar ou reagir contra um ato violento. Porém, a sua repulsa desaparece após um episódio de estresse pós-traumático, seguido de uma tentativa de suicídio.

Mas onde quero chegar? — Deve estar perguntando o caro leitor.

Há poucos dias, imagens capturadas por um drone, mostraram cidadãos palestinos sendo mortos a tiros, por soldados israelenses, em meio à distribuição de alimentos, via ajuda humanitária. Cenas que deveriam chocar qualquer ser humano.

Ocorre que nem todos, atualmente, são impactados por esse tipo de imagem.

A meu ver, estamos tão submetidos a imensas doses de brutalidade, que perdemos grande parte de nossa capacidade de reagir com a devida aversão a atos brutais.

Seja rolando a tela dos canais das mídias corporativas ou das redes sociais, a violência é vista com tremenda frequência, impulsionada pelo nosso mórbido interesse por situações de drama extremo.

É possível que o fato de vermos dramas mais intensos que os nossos, nos deixe mais “confortáveis” em nossa mediocridade e talvez por isso o interesse seja tão elevado.

O problema é que passamos a nos habituar às mais diversas formas de violência que a Internet exibe e com isso, banalizamos o impacto que as mesmas têm sobre nossa capacidade de sentir o mal imposto ao próximo e a nós próprios.

Um rolar de tela e a cena de um gatinho descendo a escada é capaz de alterar nossa dor. Diante de uma dose de recompensa em forma de fofura felina ou de qualquer outro tipo de “meme”, somos anestesiados.

É óbvio que nem todos se deixam enganar e ainda resta alguma esperança em parte da humanidade, capaz de refletir sobre esse enorme abismo que nos metemos.

Vivemos um tempo onde enxergar a realidade tornou-se uma espécie de dom quase divino, capaz de ver além das inverdades que se multiplicam de forma exponencial, principalmente nos ambientes digitais.

Eu sei que houve muitos protestos contrários às exageradas ações do Estado de Israel contra o Hamas.

Ocorre que o justificado direito de resposta de Israel ultrapassou inúmeros limites humanitários e tornou-se tão ou mais cruel que os praticados por seus inimigos terroristas.

Milhares de palestinos inocentes, — na maioria mulheres e crianças — perderam suas vidas, sem qualquer direito de defesa.

Mas o quanto isso nos sensibilizou e mobilizou, em defesa da vida dos inocentes?

A carga expressiva de violência dispersa na Internet nos afetou a tal ponto, que nossa indignação diante das mais variadas formas de guerra não nos revolta tanto quanto antes. Estamos inertes e nossos líderes mundiais também.

A pulsão de morte encontrou na Internet uma terra fértil e isso está se replicando no mundo real, enquanto deixamos nossos “corações” em forma de likes nas redes sociais.

Sofremos todos, sem perceber, o tratamento Ludovico e nos tornamos majoritariamente incapazes de reagir contra as formas de violência, mas não de curti-las.

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