Uma crônica sobre afinidades sinceras, interesses confessáveis e gente que muda de grupo como quem troca de camisa — mas esquece de lavar


Sempre ouvi dizer que vale mais um amigo na praça do que dinheiro no bolso. Concordo plenamente. Até porque dinheiro no bolso a gente perde, gasta ou empresta; já amigo ruim a gente carrega por anos, pagando juros emocionais altíssimos.
Com o tempo, a vida vai nos ensinando uma coisa preciosa: não é todo mundo que merece o título de amigo. Alguns merecem, no máximo, um “conhecido eventual com bom dia educado”. Outros, nem isso — ficam restritos ao aceno de cabeça, que é o diploma máximo da convivência civilizada.
Depois de certa idade, amizade não nasce mais no entusiasmo. Nasce na observação. A gente olha, escuta, testa, confere o troco e só então decide se continua a conversa ou finge que o celular vibrou.
Há pessoas que pertencem a todos os grupos. Hoje estão na igreja, amanhã no clube, depois no pedal, no churrasco do vizinho e, se der tempo, no happy hour do pessoal que acabou de conhecer. Não é sociabilidade — é turismo humano. São cidadãos do mundo… desde que o mundo ofereça algum benefício imediato.
Essas figuras não criam vínculos; criam presenças. Aparecem, somem, reaparecem — sempre no momento mais conveniente. Quando a conveniência acaba, elas também acabam, como café mal passado.
Amizade de verdade, ao contrário, não nasce de gostos idênticos, mas de valores compatíveis. Você pode gostar de corrida de cavalos e o outro preferir sofá e controle remoto. Isso é detalhe. O essencial é saber se ambos pagam as próprias contas, tratam bem quem não tem nada a oferecer e conseguem discordar sem virar bicho.
Aliás, o mundo é um zoológico disfarçado de reunião social. Tem cobra, escorpião, pavão e muito camaleão. Alguns avisam quem são logo de cara. Outros se apresentam como santos e revelam a peçonha depois. A experiência ensina: quando alguém mostra a própria natureza, acredite. Ela não está brincando.
E não, não é pecado admitir interesses comuns. Pecado é fingir desinteresse. Amizade que nasce de negócio pode dar certo — desde que ninguém jure amor eterno na cláusula terceira. Negócios são claros, escritos, assinados. Amizades nebulosas costumam acabar com alguém dizendo: “Eu achei que você fosse diferente”.
Há também os que carregam alguma fé — em Deus, na ética ou, pelo menos, no constrangimento moral. Gente que se comporta bem mesmo quando ninguém está olhando costuma ser excelente companhia quando tudo dá errado. O problema são os que só acreditam em Deus quando precisam de um favor urgente.
No fim das contas, amizade não se mede pelo tempo, mas pela constância. Não é quem anda com você quando tudo vai bem, mas quem continua por perto quando o assunto esfria, o cargo muda e o convite some.
E se, depois de observar tudo isso, você encontrar alguém empático, coerente, transparente e minimamente confiável… cuide, segure, pois é raro. Não precisa colocar no pedestal. Basta colocar na vida. Porque dinheiro ajuda, poder impressiona, mas amizade sincera… essa não cabe no bolso — e, felizmente, também não tem preço.
Os outros — os amigos de ocasião, de conveniência, de foto e de vantagem — esses você pode deixar na praça mesmo.
Com sorte, eles encontrarão outro bolso.
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