Olá, compadecidos legentes!
Saibam quantos esta virem que, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo — mais precisamente, mas nem tanto —, quase às vésperas do nem tão ecumênico 4 de outubro de 2026, data do primeiro turno das eleições nesta Terra Brasilis, foi impossível não me lembrar de Ariano Suassuna e de seu Auto da Compadecida.
E como não pensar naquele pedido de socorro de João Grilo, diante do Encourado, já prestes a carregá-lo porta adentro do inferno?
Foi então que o amarelo mais amarelo, em toda a sua desgracência, tomou coragem e anunciou:
“Ah, isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver? Valha-me Nossa Senhora, / Mãe de Deus de Nazaré! / A vaca mansa dá leite, / A braba dá quando quer. / A mansa dá sossegada, / A braba levanta o pé. / Já fui barco, fui navio, / Mas hoje sou escaler. / Já fui menino, fui homem, / Só me falta ser mulher.”
Pois então: João Grilo, que passara a vida enganando a fome, escapando dos poderosos e remendando a verdade conforme a precisão, foi parar diante do julgamento derradeiro. E o que haveria de fazer o amarelo, ali, sem tostão, sem padrinho banqueiro e com o Encourado de olho nele? Esperteza nenhuma lhe servia mais. Pecado era pecado, está certo; mas que justiça seria essa que não levasse em conta o medo, a necessidade e a fraqueza dos homens? Foi quando João Grilo se lembrou de quem nunca se esquece dos esquecidos: chamou por Nossa Senhora. E ela veio. Não para dizer que o errado estava certo, nem para fazer de João santo de repente, mas para pedir que olhassem o homem por inteiro. Porque uma coisa é errar por maldade; outra, bem diferente, é errar apertado pela fome e pelo medo.
E não pensem os ricos e poderosos que podem se esconder debaixo da mesma desculpa: a necessidade diminui a culpa; o privilégio usado contra os fracos faz é aumentar.
Pois bem, compadecidos legentes, a cena voltou à lembrança quando Nossa Senhora Aparecida entrou na recente disputa eleitoral. Correu notícia de que um candidato a queria tirar o título de Padroeira — sacrilégio de levar para o inferno, sem direito a purgatório. Também andou nas bocas de que foi invencionice. Mas ficou a pergunta: por que causa tanto alvoroço uma Santa que protege os pequenos? Talvez porque, para quem se acostumou a mandar, toda compaixão pareça rebeldia — coisa de deixar até Nossa Senhora embravecida.
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