A escolinha do Cartonifício

Vendo um velho álbum de fotografias, dentre as inúmeras fotos vejo uma que me mostra montado num belo cavalo em cima de uma balsa de madeira, numa lagoa que me lembro ser a do Cartonifício Valinhos. Nessa ocasião tinha eu 18 anos.

O cavalo pertencia ao saudoso veterinário Vicente, que trabalhava na Prefeitura de Valinhos, e que gentilmente me cedeu para dar umas voltas pelos arredores. E, de repente, estava lá eu em cima dessa balsa na lagoa, pelo fato de ser um local isolado, situado atrás da antiga estação de trem, cujo prédio abriga hoje o Museu Municipal Fotógrafo Haroldo Ângelo Pazinatto.

E, de repente, me veio à mente uma lembrança do passado: a escolinha do Cartonifício, onde fiz o primeiro ano do grupo escolar. A escolinha era um prédio de propriedade do Cartonifício — empresa da querida família Celani que, desde 1934, tanto contribuiu e tem contribuído para o desenvolvimento e o progresso de nossa terra valinhense —, a qual era cedida gratuitamente ao Estado para a promoção das aulas de primeiro e segundo anos do ensino fundamental que, na época, chamávamos de grupo escolar.

A escolinha era um prédio simples, situado atrás da lagoa e para ter acesso a ela tínhamos que caminhar adentrando terras do Cartonifício, atravessando uma porteira e passando por uma pequena ponte. Meu pai ou minha mãe me levava até o ponto de encontro com toda a molecada que ali ficava aguardando a professora Angelina Aparecida Pazinatto Mattiazzo, a dona Zila. Esse ponto de encontro ficava localizado abaixo de uma frondosa paineira.

Com a chegada da dona Zila, caminhávamos todos em filha dupla, sob o seu rígido comando, para o nosso destino: a escolinha. Lá, haviam duas classes: a do primeiro e a do segundo ano. Não havia separação física entre elas, apenas uma divisão entre carteiras. E a professora Zila dava aulas para as duas turmas. O único e precário banheiro ficava situado fora da escolinha, o qual somente podíamos utilizar no recreio. Formava fila.

Eu trocava meu lanche, um pouco mais sofisticado, com um lanche mais simples de alguns coleguinhas, apenas pão com ovo ou uma banana. Uma felicidade! Dona Zila era conhecida pela sua conduta enérgica e severa para com os seus alunos. A título de corretivo utilizava-se de uma comprida régua que, muitas vezes, me sobrou na orelha.

Quando ela traçava um círculo e desenhava números elaborando a figura de um relógio na lousa, sabíamos que iria tomar a tabuada. Colocava um número no centro do “relógio” e apontava com a régua para um dos números. E chamava o pobre coitado do aluno. Meu Deus, que frio na barriga. Ficava apavorado, torcendo para que não fosse chamado. Se errasse tomava uma reguada. Não sei que método a dona Zila usava, talvez o do instinto puro de uma verdadeira educadora. E, assim, com ela aprendi a ler e a escrever!

Mesmo para o querido e saudoso companheiro de escolinha, o José Luiz, seu filho, não fazia ela qualquer diferença. Tratava-o igual aos demais, sem privilégios. Também para ele sobravam reguadas, se fosse o caso.

Então imaginem: para o menino de sete anos não era fácil ir para a escola. E na época, não tinha essa de ficar doentinho, estar chovendo. Íamos debaixo de chuva ou sol, gripado ou não, conduzidos pelos pais sem piedade. Até debaixo de puxão de orelha!

 O que hoje agradeço, — e muito —, quero ressaltar!

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