Deu Tempo de Florescer

Cora Coralina e a certeza de que nunca é tarde para os sonhos

                Poucos meses antes de o Brasil deixar de ser Império, nasceu, na antiga Vila Boa de Goiás, uma menina chamada Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas.

                Era agosto de 1889.

                A República ainda nem havia chegado, mas aquela menina já trazia dentro de si uma pequena revolução: a palavra.

                Anna cresceu na Casa Velha da Ponte, um casarão antigo às margens do Rio Vermelho. Frequentou somente os primeiros anos do curso primário. Foi toda a instrução escolar que recebeu. Não conheceu universidades, academias literárias ou salões frequentados pelos grandes escritores. Sua escola verdadeira foi outra: os becos de Goiás, as lavadeiras do rio, as mulheres simples, os homens da roça, as pedras antigas, os quintais, os fogões a lenha e os silêncios guardados dentro das casas.

                Começou a escrever ainda adolescente.

                Escrevia versos, contos e pequenas histórias. Algumas dessas páginas apareceram em jornais e revistas, mas quase ninguém lhes deu importância. Para o mundo, Anna era apenas mais uma moça do interior. Para ela, entretanto, cada palavra lançada ao papel era uma maneira de permanecer viva.

                Foi então que adotou um nome capaz de atravessar o tempo: Cora Coralina.

                Depois vieram o casamento, a mudança para o Estado de São Paulo, os filhos e as responsabilidades da vida cotidiana. Vieram também as dificuldades financeiras, o trabalho e a necessidade de sustentar a família.

                Cora vendeu de tudo um pouco. Trabalhou no comércio, enfrentou dias apertados e, mais tarde, fez dos doces o seu sustento. Suas mãos preparavam bolos, compotas, licores e doces cristalizados. As mesmas mãos que mexiam tachos de cobre, adoçando frutas, também escreviam poemas, adoçando — ou amargando, quando necessário — as verdades da existência.

                Durante muitos anos, os clientes chegaram antes dos leitores.

                Cora recebia as pessoas em casa, entregava suas encomendas e conversava com todos. Talvez alguns levassem um doce sem perceber que, diante deles, estava uma das maiores escritoras que a literatura brasileira conheceria.

                As décadas passaram.

                Nenhuma editora importante bateu à sua porta. Nenhum grande crítico anunciou que uma voz extraordinária estava nascendo entre os becos de Goiás. Nenhum professor de universidade apareceu para dizer que aqueles cadernos guardavam poesia verdadeira.

                Havia somente uma senhora do interior, sem diploma, sem influência e sem padrinhos literários, escrevendo depois de terminar os afazeres do dia.

                Mas Cora não parou.

                Em junho de 1965, quando estava prestes a completar setenta e seis anos, publicou seu primeiro livro: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais.

                Setenta e cinco anos!

                Para muitos, aquela seria uma idade apropriada para guardar os sonhos numa gaveta. Para Cora, foi a idade de abri-la.

                O livro, porém, não provocou imediatamente o reconhecimento nacional. Passou algum tempo quase despercebido pelos grandes círculos literários. A escritora continuou em sua casa antiga, junto ao rio, preparando doces e escrevendo.

                Ela sabia, talvez melhor do que ninguém, que certas sementes demoram a romper a terra.

                Somente em 1980, quando Cora já tinha noventa e um anos, Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre sua obra no Jornal do Brasil. A partir daquele momento, o país começou a enxergar a mulher que Goiás conhecia havia tanto tempo.

                Vieram o reconhecimento, os leitores, as homenagens e os prêmios.

                Cora Coralina tornou-se uma das maiores vozes da poesia brasileira. A menina que estudara apenas o curso primário passou a ser estudada nas escolas. A mulher ignorada pelos círculos literários recebeu o título de Doutora Honoris Causa. A doceira que vendia suas encomendas de porta em porta tornou-se patrimônio de nossa literatura.

                Cora morreu em abril de 1985, aos noventa e cinco anos.

                Deu tempo.

                Deu tempo de publicar livros. Deu tempo de ser lida. Deu tempo de ser reconhecida. Deu tempo de transformar os becos de uma pequena cidade goiana em caminhos universais da língua portuguesa.

                A Casa Velha da Ponte virou museu. Os cadernos escondidos tornaram-se livros. A doceira virou poeta. E a voz daquela menina, nascida antes da República, chegou inteira ao século seguinte.

                A vida de Cora Coralina nos deixa uma pergunta incômoda e necessária: quem decidiu que existe idade certa para começar?

                Há pessoas que abandonam seus sonhos aos trinta porque se consideram atrasadas. Outras chegam aos cinquenta convencidas de que o tempo lhes fechou as portas. Algumas, aos setenta, acreditam que já não podem escrever um livro, aprender um ofício, amar novamente ou recomeçar a vida.

                Cora começou a ser publicada quando muitos já pensariam em despedidas. E floresceu.

                Talvez o tempo não seja uma parede, mas uma estrada. Talvez a idade não determine o fim de nossos sonhos, apenas lhes acrescente experiência. Talvez as mãos marcadas pelos anos sejam justamente as mais preparadas para escrever aquilo que o coração levou uma vida inteira para compreender.

                Se você guarda poemas numa gaveta, escreva mais um.

                Se deseja publicar um livro, organize a primeira página.

                Se existe uma vontade antiga chamando pelo seu nome, escute-a.

                Não pergunte quantos anos já passaram. Pergunte o que ainda pode ser feito com os anos que permanecem.

                Cora Coralina esperou setenta e cinco anos para ver seu primeiro livro publicado e mais quinze para ser reconhecida nacionalmente.

                Ainda assim, deu tempo.

                Porque o sonho verdadeiro não pergunta a idade de quem o carrega. Ele apenas espera coragem para nascer.

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