Quando o errado se torna normal

É hora de mudança, renovação e transformação

Há alguma coisa profundamente errada numa sociedade que já não se espanta com o erro.

Você acha normal que políticos, eleitos para servir ao povo, utilizem o poder em benefício próprio e, mesmo envolvidos em escândalos, continuem recebendo aplausos?

Você acha normal que o dinheiro público desapareça nos labirintos da corrupção, enquanto faltam medicamentos nos hospitais, professores recebam salários indignos e crianças estudem em escolas públicas precárias, mal equipadas e despreparadas para os desafios de um mundo cada vez mais tecnológico? E que tudo isso aconteça justamente num país sustentado pelo suor de milhões de trabalhadores que esperam, em troca de seus impostos, ao menos serviços públicos dignos?

Você acha normal que alguns desfrutem de privilégios sem trabalhar, enquanto tantos outros trabalham dobrado para sustentar suas famílias?

Você acha normal que o cidadão honesto precise transformar sua casa numa fortaleza, cercada de muros, grades, câmeras e cercas elétricas, para proteger aquilo que conquistou com o próprio trabalho? E aqueles que mal conseguem sustentar suas famílias, sem recursos para tanta proteção? Estariam condenados a viver ainda mais expostos à violência, como se a segurança fosse um privilégio de quem pode pagar por ela, e não um direito de todos?

Você acha normal que nossas crianças tenham a inocência ameaçada pela violência, pelo abandono, pela criminalidade e pela sexualização precoce, enquanto faltam proteção, educação e oportunidades?

                E que pessoas proclamem valores religiosos, falem em amor ao próximo e respeito à vida, mas nem sempre demonstrem, em suas atitudes, a coerência que exigem dos demais?

O que mais preocupa, entretanto, não é apenas a existência desses problemas. É a facilidade com que aprendemos a conviver com eles.

                Escândalos se sucedem. Autoridades prometem. Investigações começam. Discursos inflamados ocupam as tribunas. E, no dia seguinte, tudo parece esquecido, substituído por uma nova promessa, um novo escândalo, uma nova vergonha.

Transformamos a esperteza em virtude, a vantagem indevida em inteligência e a honestidade em ingenuidade.

Quem respeita as regras é chamado de tolo. Quem consegue burlá-las, não raramente, é admirado pela própria astúcia.

E assim seguimos, confundindo liberdade com permissividade, direitos com privilégios e justiça com conveniência.

Que sociedade estamos construindo?

Talvez tenhamos passado tempo demais esperando soluções que nunca chegam como imaginávamos. E tempo de menos refletindo sobre nossa participação na construção desse estado de coisas.

Afinal, não podemos exigir honestidade dos governantes enquanto toleramos pequenas desonestidades no cotidiano. Tampouco podemos desejar uma sociedade melhor sem assumir a responsabilidade de contribuir para ela.

O Brasil possui riquezas, talentos e uma extraordinária capacidade de superação. Mas nenhuma dessas qualidades dispensa a necessidade de enfrentar seus problemas com seriedade.

Desenvolvimento não se mede apenas por edifícios, estradas ou tecnologias. Mede-se também pela segurança das famílias, pela qualidade da educação, pelo respeito à dignidade humana e pela confiança nas instituições.

Podemos construir cidades inteligentes e continuar incapazes de praticar a mais elementar inteligência coletiva: respeitar o próximo.

Podemos erguer muros cada vez mais altos, mas jamais construiremos uma sociedade melhor enquanto nossos valores permanecerem tão baixos.

Precisamos de coragem para abandonar velhos hábitos e disposição para reconhecer que nenhuma transformação duradoura acontece sem compromisso coletivo.

E, acima de tudo, precisamos de esperança.

Não daquela esperança ingênua que aguarda milagres, mas da esperança consciente de quem compreende que o futuro depende das decisões tomadas no presente.

É hora de mudança. De renovação. De transformação.

É hora de exigir que o exercício do poder seja acompanhado de responsabilidade, transparência e respeito ao cidadão. Que as promessas possam ser confrontadas com os resultados e que nenhum governante esteja acima do dever de prestar contas.

Porque nossos filhos e netos merecem herdar um país em que a honestidade não cause espanto, a segurança não seja privilégio e a dignidade não permaneça apenas nos discursos.

O Brasil não precisa perder a esperança. Precisa transformá-la em consciência e responsabilidade.

Afinal, não basta perguntar que Brasil queremos para o amanhã. Precisamos decidir que Brasil estamos dispostos a construir hoje.

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