Semiótica dos tempos

Olá, observadores legentes!

São tantos os símbolos que invadem nossas retinas — nas telas de nossos celulares e televisores e nos muros das ruas — que, não raramente, podemos não conseguir distinguir bem algumas mensagens.

Será que a semiótica pode ser o colírio que irá lavar nossos olhos, ajustar nosso foco, abrir nossa visão para o real clamor de tantas pessoas a protestarem nas ruas? Será?

Pensemos sobre os fatos vistos nos últimos dias nos noticiários globais, redes sociais e compartilhados pelos aplicativos de mensageria.

Para exemplificar o que pretendo dizer neste artigo, escolhi falar primeiro sobre os atos estudantis que têm tomado as ruas de Paris e outras localidades europeias.

Há poucos dias, a Orchestre du Nouveau Monde (Orquestra do Novo Mundo), sob a regência do jovem maestro Étienne Jarrier, seu fundador, foi deliberadamente atacada por forças de repressão policial na capital francesa.

Ocorre que o ato estava autorizado, e nada ocorria que pudesse justificar o uso da violência, de gases e de outras ações repressoras. A jovem orquestra tocava o tema “The Hanging Tree” (conhecido em português como “A Árvore da Forca”), da trilha sonora de Jogos Vorazes. A canção foi composta por James Newton Howard e Suzanne Collins e interpretada por Jennifer Lawrence no filme Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1.

Quem viu as imagens daquele dia percebeu a força do maestro, de seus músicos e de muitos que os assistiam e que não se dispersaram, mantendo-se lá até o término da apresentação, debaixo de bombas de efeito moral e gás lacrimogênio.

Noutro momento dos protestos em Paris, duas turistas transitam com suas malas de viagem entre aqueles que protestam, bombas, gases, pedras e repressão. Outra jovem atravessa o protesto enquanto faz seu treino de corrida com sua roupa leve em meio aos manifestantes que buscam se proteger. Ela passa como se tudo aquilo fosse nada.

Mas há uma imagem ainda mais perturbadora: a de um casal que conversa tranquilamente enquanto aprecia seu café. Um homem e uma mulher que parecem imunes aos protestos que ocorrem do lado de fora do estabelecimento onde estão e de onde vêm as imagens de fogo e destruição na rua. Mas nada os afeta. Nem mesmo o observador que os fotografou naquela cena: outro personagem interessante no contexto semiótico.

Há mais uma imagem também marcante: refiro-me ao dono de uma livraria que montou uma pequena mesa e uma cadeira em frente à sua propriedade, a única que não foi atacada pelos manifestantes (estudantes).

A partir destes fatos citados e que podem ser facilmente verificados na Internet, venho para as imagens das recentes manifestações, Brasil a fora, às vésperas do segundo turno das eleições. Milhões e milhões de brasileiros têm tomado as ruas para demonstrarem seus desejos e descontentamentos políticos, denotando a importância da participação dos cidadãos e cidadãs no processo de escolha de quem irá nos conduzir nos próximos quatro anos.

Agora pensem em outras imagens, nada distantes de nossa memória: as sedes dos Três Poderes, que foram vandalizadas por manifestantes em 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Pensem nos demais atos violentos ocorridos dias antes. Avancem um pouco no tempo e vejam a imagem de um homem caído morto por um artefato que ele próprio produziu e disparou contra o STF.

Com todas essas imagens e os símbolos que elas carregam, responda a si mesmo: quem é você nelas? O incêndio das ruas, as bombas, o gás que faz chorar, a violinista que lacrimeja, mas se mantém firme ao interpretar sua música, o maestro que rege os sonhos de um novo mundo com mais esperança, o manifestante que poupa a livraria, o proprietário que a defende sentado à mesa na calçada, uma turista que atravessa a manifestação com sua mala cor-de-rosa, a atleta do dia a dia que perpassa os manifestantes, um dos integrantes do casal que conversa e toma café enquanto o mundo arde diante da janela do restaurante ou o fotógrafo que faz o registro?

São muitos papéis, e cada qual carrega muitos símbolos, a depender de como os observamos, de nossos pontos de vista e de nossas interpretações.

Eu sei que é difícil responder à minha pergunta — que deve ser respondida apenas a você mesmo e com base em tudo aquilo que você tem observado —, mas eu, particularmente, não quero ser alguém como aquele casal, nem apenas o fotógrafo que registra. Sempre haverá indiferença e neutralidade; sempre haverá alguma forma de barbárie. Mas também haverá aqueles que se manifestarão pela música, com suas palavras de esperança e com seus livros bem protegidos. São esses os signos que mais me mobilizam e ao lado dos quais quero estar.

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