

Olá, legentes!
Como não falar sobre o momento político que o Brasil atravessa e que nos atravessa? Mas como falar sobre isso quando tanto já foi dito e muitos ainda se mostram indecisos, decepcionados ou desmotivados a ir às urnas para depositar suas esperanças — se é que ainda as têm. Quero crer que as tenham e que comparecerão para votar no próximo dia 25 de outubro.
Por isso, escolhi falar um pouco sobre meu livro mais recente — sem dar spoilers —, O ventríloquo de Ybyrá, lançado em janeiro deste ano pela Urutau, e sobre como ele dialoga com estes tempos.
Ao longo de quase três anos de trabalho, entre escrita, revisão e publicação, uma coisa ficou clara para mim: para compor os traços da psique do protagonista, a história não se vale apenas de suas experiências familiares traumáticas, mas também mantém um diálogo atual com nosso cenário político, econômico e social e com as questões ambientais — fatores que atuam diretamente na luta existencial de Núncio. Afinal, não se pode dissociar sujeito e sociedade.
Em O ventríloquo de Ybyrá, a trajetória de Núncio pode ser lida como alegoria de um Brasil que luta para reconhecer a própria voz. Abandonado, violentado e silenciado pelas instituições que deveriam protegê-lo, o protagonista converte a voz que conquistou em instrumento de poder. No entanto, permanece a dúvida: é ele quem controla os bonecos ou são as vozes de Aguirre, Salomé, Sodré e Parvo que falam por sua boca?
A pergunta atravessa o romance e alcança a política brasileira: quem realmente se expressa quando uma voz afirma representar o povo?
Os bonecos condensam forças presentes na vida pública. Aguirre encarna o autoritarismo e o medo; Salomé, a sedução; Sodré, uma falsa elite, aparentemente refinada, porém submissa ao poder; Parvo, a repetição sem reflexão. Desconjuntados dentro de Núncio, formam uma sociedade fragmentada, movida por ressentimentos, interesses e desejos contraditórios. Trata-se de um inconsciente traumático e doentio, que muito se assemelha à situação política de nosso país, em que candidatos, partidos, igrejas, grupos econômicos, redes digitais e militâncias disputam o controle da narrativa nacional.
Ybyrá, por sua vez, é a miniatura de um Estado capturado. Embora “nem fosse cidade”, possui prefeito autoproclamado, delegado, religião, cobranças, obras públicas e exploração mineral. Ali, a autoridade substitui a lei, a fé legitima o mando e a propaganda converte apropriação privada em progresso. Argamandel, o grande antagonista de Núncio, não precisa destruir a democracia: basta impedir que ela exista. O romance adverte, assim, que uma sociedade pode perder sua liberdade não apenas por golpes ostensivos, mas pela normalização cotidiana da violência, da mentira e do abuso institucional.
A eleição presidencial de 2026 revela um país dividido, no qual quase toda a disputa eleitoral se concentra em dois projetos antagônicos: um democrático, outro não. Nesse ambiente, o adversário deixa de ser concorrente e passa a representar uma ameaça existencial. É o território de Aguirre e de Argamandel: quando o medo domina, a palavra deixa de convencer e começa a subjugar.
Se o eleito se imaginar proprietário do país, Ybyrá continuará existindo. Se cidadãos repetirem palavras alheias sem examiná-las, Parvo seguirá falando. A saída democrática exige reconhecer as vozes conflitantes sem permitir que uma delas elimine as demais. A pergunta decisiva, portanto, não é somente quem governará o Brasil, mas quem falará por meio desse governo — e se a sociedade continuará reduzida a um boneco ou finalmente aprenderá a falar por si.
Quer saber as últimas notícias de Valinhos, siga o nosso Instagram: https://www.instagram.com/terceiravisaovalinhos/