Quando a justiça dá voz aos esquecidos, a humanidade inteira encontra motivos para ter esperança.


Há pessoas que atravessam a vida em busca de poder, prestígio e reconhecimento. Outras, mais raras, dedicam sua existência a defender aqueles que sequer conseguem fazer ouvir seus próprios gritos.
Foi pensando nisso que recebi, com satisfação, a notícia da concessão do Prêmio Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, por sua coragem e integridade excepcionais na defesa do direito internacional e dos direitos humanosao longo de mais de cinco décadas.
Não conheço pessoalmente essa mulher. Mas conheço, pela história, a grandeza de sua luta. E confesso que me emociona saber que, num mundo tão marcado pela violência, pela intolerância e pela indiferença, ainda se reconheça o valor de quem escolheu defender a dignidade humana.
Nascida numa África do Sul dividida pelo apartheid, Pillay conheceu de perto a crueldade da discriminação racial. Poderia ter se conformado. Preferiu lutar.
Defendeu perseguidos políticos, enfrentou preconceitos, rompeu barreiras e levou sua coragem aos tribunais internacionais. Em Ruanda, contribuiu para o reconhecimento da violência sexual como instrumento de genocídio. Em Gaza, participou de investigações sobre atrocidades que continuam a ferir a consciência da humanidade.
Sua trajetória nos ensina uma verdade que considero fundamental: a justiça perde sua razão de existir quando se curva diante dos poderosos e abandona os indefesos.
O Comitê Norueguês do Nobel reconheceu nela a coragem, a integridade e o compromisso com o direito internacional. E acertou!
Naturalmente, a escolha desagradou a governantes influentes, entre eles Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Mas desde quando a defesa dos direitos humanos precisa da aprovação daqueles que exercem o poder?
A paz não pode ser privilégio dos vencedores, tampouco instrumento de conveniência política. Não pertence a governos, partidos ou ideologias. Pertence à humanidade.
Penso nas crianças que adormecem ao som das bombas, nas mães que procuram seus filhos entre escombros, nos perseguidos por sua origem, religião ou condição social. Penso, sobretudo, naqueles que sofrem em silêncio porque ninguém lhes oferece a palavra.
São essas pessoas que precisam de vozes como a de Navi Pillay.
Não se trata de escolher lados numa disputa entre nações. Trata-se de escolher o lado da vida, da dignidade e do respeito ao ser humano.
Como advogado, sempre acreditei que o Direito deve servir à justiça, jamais à força. E que nenhuma autoridade, por mais poderosa que seja, pode estar acima da lei.
Por isso, aplaudo a premiação.
O verdadeiro prêmio não está na medalha recebida, mas na esperança devolvida àqueles que já não acreditavam ser ouvidos.
E, enquanto houver alguém disposto a enfrentar a injustiça para defender os esquecidos, a paz continuará sendo mais que uma palavra bonita.
Continuará sendo uma possibilidade.
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