A conta da longevidade

Uma crônica sobre a estranha aventura de viver muito num mundo que ainda não descobriu como bancar a longevidade

Completei 79 anos. Escrevo o número sem disfarces porque, a esta altura, já não compensa mentir para a certidão de nascimento. Ela tem firma reconhecida e, se necessário, prova tudo em juízo.

Antigamente, um homem de 79 anos era chamado de ancião. Sentava-se numa cadeira de balanço, contava histórias aos netos e aguardava os acontecimentos. Hoje, precisa fazer musculação, pilates, caminhada, beber dois litros de água, tomar vitamina D, controlar a glicemia, exercitar o cérebro, viajar, namorar, ter projetos e, se sobrar tempo, envelhecer.

Envelhecer tornou-se atividade de tempo integral.

Outro dia, o médico perguntou se eu pretendia chegar aos cem.

— Doutor, depende. Quem vai pagar?

Ele riu. Eu não. Aos vinte, queremos viver para sempre. Aos quarenta, fazemos previdência. Aos sessenta, contratamos plano de saúde. Aos 79, abrimos a fatura e perguntamos se pretendem nos manter vivos ou nos matar pelo boleto.

A longevidade virou moda. Dizem que os noventa são os novos sessenta. Nesse ritmo, aos cem estarei procurando estágio. Nas redes sociais, um senhor de 92 anos levanta pesos; uma senhora de 87 salta de paraquedas; um casal de 95 dança tango. Fecho o aplicativo. Não gosto de gente da minha faixa etária fazendo pressão psicológica.

Reivindico o direito constitucional à preguiça. Nem todo idoso precisa escalar o Himalaia. Alguns ficariam satisfeitos em encontrar os óculos que estão sobre a própria cabeça.

Também envelhecemos cercados de senhas. Todas exigem maiúscula, minúscula, número, símbolo e, provavelmente, uma lembrança da infância. Quando crio uma, esqueço-a. O banco pede reconhecimento facial e responde: “Não foi possível reconhecer”. Se nem o banco me reconhece, talvez eu já tenha partido e ninguém teve coragem de avisar.

Mas continuo aqui. Peguei papel e escrevi: “Plano para viver até os cem”. Primeiro item: não morrer antes. Segundo: ter dinheiro suficiente. Foi aí que surgiram dificuldades técnicas. A medicina aumentou nossa expectativa de vida, mas ninguém avisou à aposentadoria. Talvez o homem viva até os cem; o dinheiro, em muitos casos, falece aos 83. E dinheiro, ao contrário de gente, não ressuscita.

Comecei, então, a valorizar ainda mais os amigos. Amigo é previdência privada afetiva: não rende juros, mas aparece quando precisamos. Às vezes traz café; às vezes, conversa; às vezes não traz nada — e justamente por isso já ajuda muito.

Recuso a obrigação de envelhecer sorridente, musculoso e fotografado numa praia do Mediterrâneo. Quero reclamar do joelho quando ele merecer, cochilar depois do almoço e comer um doce sem ouvir uma conferência sobre índice glicêmico. Venho me cuidando há 79 anos. Algum crédito devo ter acumulado.

Outro dia imaginei meu encontro com São Pedro. Ele consultaria o computador celestial:

— Nome?

— Wilson Sabie Vilela.

— Idade?

— Noventa e nove.

— Profissão?

— Advogado.

São Pedro levantaria os olhos:

— Advogado? Então sabe que aqui temos procedimentos.

— Naturalmente. Trouxe uma petição.

— Não precisava.

— Excelência, por cautela…

Ele suspiraria:

— Doutor Vilela, o senhor já fez a sua parte?

Eu pensaria no quanto trabalhei, amei, errei, escrevi, defendi causas, ri quando pude e chorei quando foi preciso.

— Acho que sim. Mas, se Vossa Excelência permitir, gostaria de mais um prazo.

— Quanto?

— Uns vinte anos.

— Excessivo.

— Quinze?

— Dez.

— Fechado.

Advogado não perde o hábito de negociar nem diante da eternidade.

Talvez esse seja o segredo: viver muito não é apenas durar, nem provar que ainda somos jovens. Já fui jovem e foi ótimo, mas passou. Quero ser exatamente o que sou: um homem de 79 anos, com histórias suficientes para saber que o tempo não precisa ser vencido. Precisa ser vivido.

Se chegar aos oitenta, comemorarei. Aos noventa, agradecerei. Aos cem, exigirei explicações. Porque viver muito é bênção; viver bem, conquista; ter com quem dividir os dias, fortuna. Agora, pagar os boletos enquanto tudo isso acontece… aí já estamos falando de milagre.

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