O Espelho das Redes

Entre curtidas, vaidades e certezas instantâneas, Montaigne ainda nos lembra que o homem que mais fala ao mundo talvez seja o que menos conhece a si mesmo.

                Vivemos numa época em que quase ninguém deseja apenas existir; deseja, sobretudo, ser percebido existindo. O café não é mais café enquanto não for fotografado. A viagem parece incompleta sem a legenda cuidadosamente arquitetada. Até o silêncio virou performance — há quem publique o próprio recolhimento como quem anuncia um produto raro.

                O filósofo e humanista francês Michel de Montaigne, séculos atrás, já desconfiava dessa fome humana por aplausos. Nos seus ensaios, em que se destacava como um dos maiores críticos da necessidade humana de transformar opinião em espetáculo, insistia que o homem pouco conhece a si mesmo e, exatamente por isso, vive tentando construir personagens para agradar os outros. Hoje, talvez ele trocasse os salões franceses pelos stories de quinze segundos e perceberia que mudaram os figurinos, mas não as vaidades.

                As redes sociais transformaram opiniões em trincheiras instantâneas. Todos falam. Poucos escutam. Muitos reagem antes mesmo de compreender. O algoritmo, esse novo maestro invisível, recompensa o exagero, a indignação e a superficialidade veloz. A prudência perdeu espaço para a frase de efeito.

                E Montaigne ensinava justamente o contrário: a dúvida como sinal de inteligência. O filósofo desconfiava das certezas absolutas. Perguntava mais do que afirmava. Talvez por isso pareça tão moderno. Em tempos de julgamentos sumários e cancelamentos públicos, sua maior ousadia seria admitir: “Posso estar errado.”

                Hoje, as pessoas não apenas exibem a felicidade; competem por ela. Há uma espécie de mercado emocional em que cada curtida funciona como pequena moeda de validação. Entretanto, quanto mais o indivíduo se oferece ao olhar alheio, mais distante parece ficar de si mesmo.

                Montaigne recolhia-se para escrever sobre a própria alma. Nós nos expomos para não encarar a nossa.

                E talvez esteja aí a ironia maior do nosso tempo: nunca houve tanta comunicação, e nunca foi tão difícil conversar; nunca houve tantas imagens, e nunca se viu tão pouco o ser humano por trás delas.

                No fim, o velho filósofo francês talvez deixasse um conselho simples diante das telas luminosas do século XXI: antes de publicar o mundo inteiro, tente compreender o pequeno universo que habita dentro de você.

Quer saber as últimas notícias de Valinhos, siga o nosso Instagram: https://www.instagram.com/terceiravisaovalinhos/

Leia anterior

O Crepúsculo do Ídolo

Leia a seguir

Veja quais bandas se apresentam no Burning Fest em Vinhedo