Olá, legentes!
Eu sei que não anda fácil olhar o redor e ainda assim manter uma postura otimista. E nessas horas, não raramente recorro a alguma leitura na busca por algum alívio. Mas toda leitura, que serve sim de acolhimento e pousada, sempre me faz refletir também. Aliás, desconfio que seja este o objetivo principal de ler.
Então, por esses dias tão turbulentos que atravessamos e que inundam os noticiários e as redes sociais a falar sobre as coisas deste país, socorri-me na poesia de Bandeira — talvez pela alusão de seu sobrenome. Não sei.
Importa que, em busca de certo refúgio, de colo ou abrigo, recorri ao poeta e fui logo para seus versos em “Vou-me embora pra Pasárgada”.
Quem nunca ouviu ao menos seu título tão sugestivo, de fuga e algum desespero já contido no subtexto?
“Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei” — machismo à parte, claro.
“Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive” — lá, inconsequentemente, tudo se pode, até os corrompidos “parentescos” de fraternidade: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
“E como farei ginástica / Andarei de bicicleta / Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d’água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar” — lá, uma deusa e outros deuses mandarão e serão mandados. Mas que histórias antigas contarão? E esse tal nome, Rosa… Acho que era de lá.
“Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um processo seguro / De impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcaloide à vontade / Tem prostitutas bonitas / Para a gente namorar” — algo feito o Madame Satã.
“E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar — Lá sou amigo do rei — Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada” — lugar que me lembra um Distrito, num centro-oeste qualquer, lugar de fazer que se quer.
Ah, Bandeira, Bandeira! Que refúgio é esse que nada me auxilia, nada me conforta, nem por pouco me sossega ou me causa alegria?
Ah, Bandeira, Bandeira! Que maldita poesia, que busquei em agonia, à qual recorri por fantasia e que só alimentou minha distimia?
Ah, Bandeira, Bandeira! Sei não, Bandeira… Sei não.
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