Sejamos coerentes!

Olá, legentes! Mais uma vez, estamos às vésperas de ir às urnas para escolher os novos representantes dos poderes Executivo e Legislativo.

Estão em disputa 513 vagas para deputado federal, 1.035 cadeiras nas assembleias legislativas estaduais e 24 vagas para deputado distrital.

O Senado Federal terá 54 cadeiras renovadas (dois terços do total de 81), numa eleição majoritária simples.

Por fim, para presidente e vice-presidente da República, uma chapa será escolhida para o cargo mais elevado do Poder Executivo. A vitória no primeiro turno, que pode ocorrer, exige maioria absoluta dos votos válidos.

A responsabilidade envolvida nestas escolhas é incomensurável, e mais de 150 milhões de brasileiras e brasileiros irão às urnas para fazê-las. É aí que começa a minha angústia.

Por esses dias, o amigo de um amigo meu — não revelo fontes — me contou sobre uma conversa que ouviu na sala de espera de uma clínica médica.

O paciente que havia acabado o tratamento abriu a carteira e tirou um maço de dinheiro vivo enquanto dizia à secretária: “Quanto é que tenho que pagar?”

A secretária, já muito acostumada a pegar a maquininha de cartões ou passar o PIX, se espantou diante da dinheirama. “Mas o senhor vai pagar em espécie?”

Foi quando o paciente disse que usava dinheiro em todos os pagamentos e que, em sua própria empresa, também só recebia dessa forma: em grana.

Então a secretária perguntou se ele queria nota fiscal para poder abater o valor no imposto de renda.

O paciente foi taxativo: “Eu não declaro esse dinheiro! Não vou dar dinheiro para ladrão.”

Em 1957, o psicólogo estadunidense Leon Festinger formulou o conceito de “dissonância cognitiva”: o desconforto psicológico que surge quando uma pessoa sustenta crenças, ideias ou comportamentos incompatíveis entre si.

O amigo do meu amigo comentou o desconforto provocado pela conversa e observou que o paciente parecia querer encerrá-la rapidamente, embora continuasse defendendo sua atitude contraditória, para não falar hipócrita, canalha mesmo.

Sua crença de que roubar dinheiro público é errado e destrói o país estava em conflito com sua ação de sonegar impostos para reter dinheiro que deveria ir para o bem público.

Em geral, esses “cidadãos” recorrem a justificativas conhecidas: “O governo já rouba muito”, culpando o sistema para legitimar a própria sonegação; “Imposto é roubo”, redefinindo a obrigação legal para aliviar a culpa; e “Meu impacto é pequeno”, minimizando o próprio erro em comparação com o do político.

Na tentativa de resolver o conflito, algumas elaborações podem surgir:

Mudar o comportamento: ajustar a ação para que ela fique de acordo com a crença, como parar de sonegar.

Justificar ou racionalizar: criar desculpas para amenizar a culpa ou negar a realidade, como afirmar que todo mundo faz igual.

Adicionar novas informações: buscar argumentos que sustentem o lado mais confortável da situação, ainda que ele não seja o mais ético.

Então, caros legentes, diante do sufrágio que se aproxima, sejamos coerentes: antes de cobrar ética dos representantes, examinemos também as justificativas com que toleramos nossas próprias transgressões. Reconhecer a dissonância entre valores e condutas — em nós mesmos e na vida coletiva — é parte da responsabilidade democrática de cada eleitor.

Quer saber as últimas notícias de Valinhos, siga o nosso Instagram: https://www.instagram.com/terceiravisaovalinhos/

Leia anterior

A conta da longevidade

Leia a seguir

Prefeitura cria 32 cargos de confiança exclusivos para servidores concursados de Valinhos